sábado, 31 de julho de 2010

DE TANTO CHUMBARES, VAIS APRENDER

Em entrevista ao Expresso a Ministra Isabel Alçada aborda a questão dos chumbos e a sua ineficácia genérica como promotor de qualidade. De imediato se levanta o alarido do costume sempre que se fala de chumbos. Diz-se a Ministra quer acabar com os chumbos. É evidente que se pode decretar que não existem chumbos, mas isso é delinquência política e ética, não creio ser isso que está na intenção da Ministra. Do meu ponto de vista a ministra enuncia bem o problema. Já muitas vezes aqui tenho referido que estudos internacionais mostram que Portugal tem ao mesmo tempo, surpreendentemente para alguns, níveis altíssimos de insucesso e níveis altíssimos de “chumbos”. No mesmo sentido, parece importante sublinhar que vários dos países com mais altas taxas de sucesso escolar não prevêem na organização dos seus sistemas a figura chumbo, sobretudo para alunos mais novos. Não se prova, portanto, a ideia de que reprovar mais produz mais sucesso. Escapa-me a insistência no chumbo como forma de promover qualidade.
Os estudos internacionais também mostram que os alunos que começam a chumbar, tendem a continuar a chumbar, ou seja, a simples repetição do ano, não é para muitos alunos, suficiente para os devolver ao sucesso. Os franceses utilizam a fórmula “qui redouble, redoublera” quando referem esta questão.
Nesta conformidade, a questão central não é o chumba, não chumba e quais os critérios (quantas disciplinas, por exemplo) é que tipo de apoio, que medidas e recursos devem estar disponíveis para alunos, professores e famílias de forma a evitar a última e genericamente ineficaz medida do chumbo. É necessário diversificar percursos de formação com diferentes cargas académicas e finalizando sempre com formação profissional.
É neste quadro que gostava de acreditar que quando a Ministra fala de criar os dispositivos de apoio a alunos e professores que substituam com vantagem a decisão do chumbo, tal cenário fosse uma realidade.
É “só” isto que está em causa. O resto é demagogia, política de segunda e ignorância. Insisto, somos o país que mais chumba e o que piores resultados obtém.

E A MUDANÇA CURRICULAR?

A Ministra Isabel Alçada anunciou que as metas de aprendizagem para o ensino básico serão divulgadas no início do ano lectivo. Pode até acontecer que seja depois das aulas, o que não é grave pois são de “utilização voluntária” por parte dos professores e são apenas um “referencial” para o estabelecimento das aprendizagens.
A definição das “metas de aprendizagem” em qualquer disciplina ou área curricular decorre, obviamente, dos respectivos conteúdos curriculares. Considerando que, designadamente, no 2º e 3º ciclo de há muito se entende a necessidade de reformas curriculares, esta é a questão central. Assim, mais do que a urgência do estabelecimento de metas de aprendizagem, seria necessário a redefinição dos conteúdos, extensão e organização curriculares.
O próprio ME, ao considerar de “utilização voluntária” as metas de aprendizagem, desvaloriza a sua importância embora acene com o facto de serem utilizadas em alguns países.
Se tivermos uma estrutura curricular ajustada, dispositivos de avaliação de alunos e professores competentes e dispositivos de apoio ao trabalho de uns e de outros, a definição formal de “metas de aprendizagem”, podendo constituir-se, de facto, como um instrumento regulador, não é imprescindível.
Com conteúdos curriculares ajustados, com a extensão e organização adequada, os bons professores, a grande maioria, saberá o que devem aprender os alunos em cada disciplina ou área disciplinar, em cada ano de escolaridade. Sim, porque eles têm de aprender, eles precisam de saber.

OS HOMENS QUE SE CHAMAVAM CAMALEÃO

Lá naquela terra onde acontecem coisas existiam alguns homens que se chamavam Camaleão, aliás, até havia muitos homens assim chamados e todos funcionavam da mesma maneira, em qualquer circunstância que estivessem faziam o que as outras pessoas estavam a fazer ou esperavam que fosse feito, ou diziam o que as outras pessoas estavam a dizer ou esperavam que fosse dito. Nunca nada de diferente.
Esta forma de funcionar criava situações curiosas pois, com muita frequência, os homens que se chamavam Camaleão entravam em contradições bem evidentes. Ora faziam exactamente o contrário do que tinham feito antes se assim fosse a situação, ora afirmavam tudo e o seu contrário conforme a audiência que tivessem.
Procuravam, assim, agradar a toda a gente e tornar-se populares e apreciados.
Naturalmente que havia muita gente que não gostava dos homens que se chamavam Camaleão e até gostava de perceber porque é que eles assim procediam. Tal preocupação levou a que os cientistas daquela terra começassem a estudar os homens que se chamavam Camaleão.
Após alguns anos de observação e investigação chegaram à conclusão que alguns grupos naquela terra, sobretudo o dos homens chamados Camaleão, tinham sofrido uma mutação genética, faltava-lhes a espinha dorsal. A falta de espinha dorsal torna impossível que os homens possam funcionar de acordo com a sua própria cabeça.

sexta-feira, 30 de julho de 2010

SE FOSSE FICÇÃO ERA MAU, COMO REALIDADE É UMA TRAGÉDIA

Poderiam fazer parte dum argumento de um filme de segunda, qualquer coisa entre a farsa, o burlesco e o non sense sem qualidade, mas não, fazem parte do mundo real de um país real que, frequentemente, parece de ficção. Vejamos.
Passados cinco anos de investigação de um mega processo judicial, o caso Freeport, a acusação é ridícula, os investigadores afirmam que não tiveram tempo para investigar tudo, parece que perderam o rasto das verbas envolvidas e, finalmente, o Procurador-geral manda investigar a investigação. Mais bizarro era impossível.
Ao fim de seis anos de julgamento e de sucessivos adiamentos da leitura da sentença do caso Casa Pia, parece agora desenhar-se a possibilidade de implodir o processo por razões processuais, voltando tudo ao início. Mais uma etapa até ao esquecimento final.
O país está suspenso sobre a decisão da Federação Portuguesa de Futebol relativa ao despedimento ou não de Carlos Queiroz, também conhecido por Professor. Parece que a decisão balança entre o despedimento com justa causa ou por motivo atendível, em versão PC (Passos Coelho), ou a rescisão com uma indemnização de cerca de 3 milhões, sim, três milhões. Por falar em despedimentos, um jornal televisivo referia há pouco o despedimento de umas centenas de pessoas na Leoni em Viana do Castelo e a taxa de 10.8% de desemprego no país, número que, aliás, deixou o inenarrável Valter Lemos satisfeito com o progresso.
Este tipo de episódios que insulta a inteligência do comum dos mortais, tem ainda um efeito devastador sobre a já degradadíssima imagem da justiça e da qualidade ética da nossa vivência como país.
Poderiam ser apenas uma excepção integrada na silly season. Lamentavelmente, são a regra em todas as estações.

CRÓNICAS DA PRAIA - Encontrei o Tuga

Hoje na praia encontrei o Tuga, ou melhor, um exemplar do Tuga, uma espécie característica do nosso habitat. No encontro de hoje na praia tratava-se de um adulto, acompanhado da mulher e dos filhos, ainda crianças pequenas.
O Tuga, braços tatuados e cabelo curtinho, chega ao areal equipado com uma camisola de alças vermelha, com o emblema do glorioso e com uns calções amarelos e verdes compridos, quase a tocar nas havaianas brancas. Carrega o chapéu de sol, uma geleira e ainda consegue rebocar um dos filhos. Traz um boné de pala e em cima desta poisam uns óculos escuros.
A tribo do Tuga poisou logo bem encostadinha às pessoas que já estão na praia, o Tuga não gosta de estar sozinho. Espetado o chapéu de sol, os miúdos são besuntados com creme protector pela mãe Tuga, enquanto o pai arruma a geleira debaixo do chapéu e em voz bem alta avisa-os para se portarem bem senão volta tudo para casa.
Em seguida pega numa bola e com um pontapé atira-a para longe dizendo aos miúdos para irem jogar e terem cuidado com as pessoas. A bola atirada pelo Tuga tinha, entretanto, acertado num velhote que passeava no sítio errado.
Com o olho nos putos o Tuga senta-se a ler o Record e puxa de um cigarro cuja cinza vai sendo depositada na areia.
Passado pouco tempo os putos aparecem, um deles a chorar porque o outro lhe tinha batido. Aí o Tuga, senta o mal comportado na toalha, acende mais um cigarro, põe os óculos na cabeça, como sabem os Tugas não usam os óculos nos olhos, é na testa ou na cabeça, e vai ele jogar com o irmão.
Dois minutos depois volta e diz para a família ir ao banho. Ouvem-se uns protestos da mãe Tuga, mas a voz alta do pai Tuga é persuasiva e vai tudo para a água.
Quando voltam, a protestar pela frieza da água, juntam-se à volta da geleira donde emergem umas "sandes" para todos, colas para os miúdos, sumo para a mãe e uma mini para o Tuga.
Durante o lanche surge uma discussão sobre a que horas sairiam da praia a que o Tuga, sempre em alta voz, pôs termo dizendo que sairão à hora que ele disser. Esta cena foi-se desenrolando acompanhada de vários telefonemas do Tuga por causa de um problema com a bomba de água do carro de que boa parte da praia ficou ao corrente.
Aquietado o estômago, o Tuga e a família deitam-se nas toalhas e ele volta ao Record e a mais um cigarro, cuja beata irá fazer companhia às anteriores no areal da praia.
Mais não pude perceber porque a minha praia acaba cedo. É sempre um prazer encontrar o Tuga.

quinta-feira, 29 de julho de 2010

EU QUERIA PERCEBER

Atentemos em alguns dados hoje divulgados no DN. No primeiro semestre de 2010 BCP, BES e BPI tiveram lucros de 544.9 milhões de euros, mais 62.2 do que em igual período de 2009, qualquer coisa como 3 milhões por dia. No mesmo período, os três bancos pagaram de impostos 33.8 milhões contra 108.6 milhões pagos de impostos no ano passado, ou seja, os lucros subiram 12%, mas pagam de imposto menos que um terço do valor do ano que passou. Sim, estou a transcrever bem, o lucro subiu 12% mas o imposto pago baixou, correspondendo a qualquer coisa como 6% dos lucros.
A notícia acrescentava algumas declarações de especialistas procurando esclarecer como é que mais lucro se traduz em menos imposto pago, situação que para qualquer de nós, trabalhadores por contra de outrem, dificilmente se verifica, creio.
Não sou particular conhecedor dos meandros da economia, sou apenas um cidadão minimamente informado que paga impostos, muitos impostos, que sofreu recentemente aumentos no IRS e no IVA e não consegue entender como os impostos pagos pela banca são obscenamente mais baixos que os dos cidadãos com rendimentos médios.
Não consigo perceber o discurso da distribuição dos sacrifícios e da necessidade de hipotecar apoios sociais e de aumento das receitas do estado assente na receita habitual, imposto sobre o rendimento do trabalho e no consumo e, caso do consumo, tratando da mesma forma quem mais pode e quem menos pode.
Não consigo perceber muito bem como é que a banca precisa da protecção, ajuda e garantias que se sustentam com os nossos impostos, apresenta lucros significativos e paga bem menos imposto que nós. Sabemos também que quando o dinheiro fica mas caro para os bancos, é o cidadão que paga, por exemplo através do aumento dos spreads.
Mas não vou ser capaz de perceber, nunca.
É a economia, estúpido. Estou cansado de saber.

CRÓNICAS DA PRAIA - Um estranho bailado

Pelo título poderia pensar-se que me refiro ao estranho bailado cantado pelos Trovante em “Travessa do Poço dos Negros”, mas não, nem sequer é em tom dolente. Vejamos então de que se trata. Nas deambulações matinais pelas minhas praias de sempre, as da Costa da Caparica, sempre que as marés andam mais baixas, dá para assistir a um espectáculo curiosíssimo. Muitíssimas pessoas à beirinha da água agitam-se furiosamente num estranho bailado rodopiante, ora em cima de um pé, ora em cima do outro, abrem buracos na areia e de vez em quando baixam-se. A coreografia, devo dizer, não é particularmente brilhante e criativa mas a performance envolve, e isso é notável, bailarinos de todas as idades, predominando adultos e seniores, todos com o mesmo empenho. A produção também não é superlativa, predominam os fatos de banho clássicos, um boné ou um mais sofisticado “panamá” na cabeça e uma garrafinha na mão para onde diligentemente é remetido o resultado do estranho bailado, meia dúzia de minúsculas cadelinhas que gozando as delícias do mar da Costa estavam bem longe de se imaginar engarrafadas pelos azafamados bailarinos.
Não sei o que mais admirar. Por um lado, acho notável o empenho e a atitude profissional dos bailarinos que sempre que apanham uma desgraçada cadelinha olham à volta para se certificar que alguém viu como caçaram, ou pescaram, mais uma e de que aquela não vai parar à garrafinha do bailarino da poça a seguir. Por outro lado, acho fantástico imaginar aqueles bailarinos e a respectiva família a preparar um delicioso e bem regado lanche com a meia dúzia de cadelinhas pequeninas, ainda juniores, que a sua empreendedora acção matinal conseguiu e que, para uma família média, dará, pelo menos, a indigesta enormidade de umas três ou quatro por prato.
Este estranho bailado ficaria muito bem numa versão beira-mar do notável “Aquele querido mês de Agosto” de Miguel Gomes.

quarta-feira, 28 de julho de 2010

OS FOGOS, SERÁ DESTINO?

Apesar de alguma aparente evolução, quando chegam os primeiros dias de calor a sério surgem os fogos, sempre.
Todos os anos somos informados de melhorias nos dispositivos de prevenção e combate, no aumento de meios à disposição, etc. Entretanto, quando a comunicação social, de forma frequentemente desajeitada, começa a mostrar o "terreno", o "cenário dantesco", a ouvir "moradores que passaram uma noite em branco", a ouvir o "senhor comandante dos bombeiros", a referir os "meio aéreos, dois Canadairs e um Kamov", a ouvir os "responsáveis locais ou regionais da protecção civil", parece um filme sempre visto e sem surpresas.
É evidente que temperaturas muito altas e vento são condições desfavoráveis e que a negligência e delinquência dão um contributo fortíssimo ao inferno que sobressalta cada Verão.
Sem nenhuma espécie de conhecimento destas matérias, para além do interesse e preocupação de um cidadão atento, tenho alguma dificuldade, considerando a dimensão do nosso país, em compreender a inevitabilidade destes cenários. Os espanhóis têm por costume afirmar que os incêndios se combatem no inverno, nós combatemo-los no inferno.
Trata-se de um destino que não pode ser evitado? Trata-se de uma área de negócios, a fileira do fogo, que, pelos muitos milhões que envolve, importa manter e fazer funcionar sazonalmente? Trata-se "só" de incompetência na decisão política em termos de resposta e prevenção? Trata-se da falência de modelos de desenvolvimento facilitadores de desertificação e abandono, designadamente das área rurais?
Acresce que em Portugal passamos o ano todo a apagar fogos de diferentes naturezas e implicações.

CRÓNICAS DA PRAIA - As Actividades Fantásticas

O síndrome das Actividades Fantásticas chegou à praia. Aquela coisa de brincar na areia, jogar à bola ou com as avós das vuvuzelas, as raquetas de praia, tomar banho ou, mais simplesmente, apanhar sol com ou sem livro, já foi.
Hoje deparei com um grupo de umas dezenas de pessoas que se abanavam furiosamente, procurando de forma desajeitada imitar os movimentos de uma jovem que maestrava o grupo.
A agitada dança, uma espécie de dança, faria certamente parte do programa de animação da praia que incluiria, seguramente, outras actividades fantásticas. Os tempos parece que nos estão a tornar incapazes de nos animarmos sem ajuda, precisamos de animadores e de programas de animação.
Quando passei, empenhado numa daquelas irrelevantes actividades, andar na praia pela maré baixa, a cara de boa parte daquela gente não parecia particularmente animada. Alguns, aparentavam mesmo estar a sofrer de animação.
Mas é uma actividade fantástica, de um programa fantástico,para uma animação fantástica. É fantástico.


terça-feira, 27 de julho de 2010

OS (DIS)MIÚDOS

O trabalho hoje divulgado no Público sobre crianças hiperactivas, não querendo beliscar a sua pertinência e rigor, vai ao encontro de uma matéria que há algumas semanas aqui abordei.
Estranharão certamente o título mas vou tentar explicar. De há uns tempos para cá uma boa parte dos miúdos e adolescentes ganharam uma espécie de prefixo na sua condição, o "dis".
Se bem repararem a diversidade é enorme, ao correr da lembrança temos os meninos que são disléxicos em gama variada, disgráficos, discalcúlicos, disortográficos ou até distraídos.
Temos também as crianças e adolescentes que têm (dis)túrbios. Estes também são das mais diferenciadas naturezas, distúrbios do comportamento, distúrbios da atenção e concentração, distúrbios da memória, distúrbios da cognição, distúrbios emocionais, distúrbios da personalidade, distúrbios da actividade, distúrbios da comunicação, distúrbios da audição e da visão, distúrbios da aprendizagem ou distúrbios alimentares.
Como é evidente existem ainda os que só fazem (dis)parates e aqueles cujo ambiente de vida é completamente (dis)funcional.
Pois é, há sempre um "dis" à espera de qualquer miúdo e senão, inventa-se, "ele tem que ter qualquer coisa".
Agora um pouco mais a sério, sabemos todos que existem um conjunto de problemas que podem afectar crianças e adolescentes mas, felizmente, não tantos como por vezes parece. Inquieta-me muito a ligeireza com que frequentemente são produzidos "diagnósticos" e rótulos que se colam aos miúdos, dos quais eles dificilmente se libertarão e que pela banalização da sua utilização se produza uma perigosa indiferença sobre o que observa nos miúdos.
Esta matéria, avaliar e explicar o que passa com os miúdos e adolescentes, exige um elevadíssimo padrão ético e deontológico além da óbvia competência técnica e científica. Não se pode aligeirar, é "dis"masiado grave.

UMA HISTÓRIA FELIZ

É a história de um rapaz chamado Tiago que vive numa família com o pai João, a mãe Maria e a irmã Filipa. Não muito longe vivem os avós António e Luísa que o Tiago e família visitam semanalmente.
O Tiago é um excelente aluno na escola pública da zona onde moram tendo passado de ano com notas muito boas tal como a irmã Filipa, também ela boa aluna da mesma escola. O Tiago e a Filipa praticam desporto fora da escola e colaboram nas acções sociais da paróquia destinadas a ajudar as pessoas mais necessitadas. Gostam particularmente de participar nas campanhas de recolha de géneros alimentares, tendo, aliás, um jeito imenso para persuadir as pessoas a ajudar.
O pai João e a mãe Maria são pais atentos que sabem estabelecer as regras e os limites que de forma tranquila são aceites pelos filhos. Conversam regularmente entre si, trocando pontos de vista e opiniões sobre que se vai passando na família e no mundo.
Aos fins de semana, quase sempre fazem um passeio, que tanto pode ser ao ar livre, uma caminhada ou uma volta de bicicleta no parque, como uma ida a um espectáculo, exposição ou museu.
O Tiago e a Filipa são miúdos tranquilos com muitos amigos que lhes enchem a casa em cada festa de anos.
A família consegue sempre ter um tempo para umas férias em conjunto, mesmo sem serem luxuosas, onde ainda mais conversam e brincam e em que arranjam sempre novos amigos.
Estão nesta altura num desses períodos de férias e este ano também levaram o avô António e a avó Luísa que nunca tinham passado uns dias na praia.
Há muito tempo que não escrevia uma história tão feliz.

segunda-feira, 26 de julho de 2010

O DIREITO AOS AVÓS

Como tem acontecido aqui no Atenta Inquietude em cada 26 de Julho, dia que a agenda das consciências manda dedicar aos Avós, retomo a minha proposta no sentido de ser legislado o direito aos avós. Isto quer simplesmente dizer que todos os miúdos deveriam, obrigatoriamente, ter avós e que todos os velhos deveriam ter netos. Num tempo em que existem milhares de miúdos sós e velhos a morrer de solidão, qualquer partido verdadeiramente interessado nas pessoas, sentir-se ia obrigado a inscrever tal medida no seu programa ou, porque não, promover a sua inscrição nos direitos fundamentais.
Com tantas crianças abandonadas dentro de casa, institucionalizadas, mergulhadas na escola tempos infindos ou escondidas em ecrãs, ao mesmo tempo que os velhos estão emprateleirados em lares ou também abandonados em casa, trata-se apenas de os juntar, seria um dois em um. Creio que os benefícios para miúdos e velhos seriam extraordinários.
Um avô ou uma avó, de preferência os dois, são bens de primeira necessidade para qualquer miúdo.

O STRESS DO CAJÓ

Já há algum tempo que não me cruzava com o meu amigo Cajó, vocês conhecem, o mecânico que tem o Punto kitado e é casado com a Odete que trabalha, quando tem, numa loja do Centro Comercial. Pois há tarde encontrei-o no café, para não variar estava agarrado a uma mini.
Então amigo Zé, não tem passado lá pela oficina, tá zangado c'a gente ou o chasso porta-se bem?
Não tem calhado Cajó, a máquina aguenta-se e é melhor que continue porque os carros estão caros.
Pá, nem me fale em caro, tá tudo uma miséria, o guito não chega p'ra nada.
A coisa não está fácil Cajó, é verdade.
Não tá fácil, mas é sempre prós mesmos. Os gajos enchem-se, gandas máquinas, belos empregos, não fazem a ponta d'um corno e depois, inda por cima, altas reformas. Um gajo anda aqui uma vida inteira enfiado no macaco com as mãos no óleo e tem que bulir até velho. A mãe da minha Odete tem setenta e tais e inda anda nas limpezas, a reforma não lhe dá para ficar a tomar conta dos miúdos e bem me dava jeito.
Pois é, a vida está um bocado dura.
Dura? Tá um stress do caraças. Agora por stress, noutro dia tava um bacano, devia ser doutor, a falar lá na oficina e tava a falar c'o patrão duma cena qualquer do stress dos bancos, uma cena assim. Stress dos bancos? Ganda treta. Stress é a vida dum gajo a ver se o guito chega até ao fim do mês. Queria comprar um telemóvel pó meu Tolicas, tinha aí um bacano que me orientava um fixe, já desbloqueado, o puto anda-me a chatear e não consigo. Amigo Zé, cuide do físico e passe por lá com o chasso, a gente precisa de clientes.
Um dia destes passo por lá Cajó, deixe que eu pago a mini, sem stress.

domingo, 25 de julho de 2010

VIDEOJOGOS E OUTROS ECRÃS

O DN de hoje apresenta um trabalho sobre os potenciais malefícios do excesso de utilização dos videojogos por parte dos adolescentes. É curioso que em Fevereiro de 2009 foi divulgado um relatório da União Europeia elaborado pelo Comité do Mercado Interno e de Protecção do Consumidor do Parlamento Europeu, sob a coordenação de Toine Manders, em que se afirmava que os resultados “contradizem muitos estudos que sublinham a dependência e a violência que os videojogos podem provocar nos mais pequenos, deixando alguns pais mais tranquilos” e, citando o próprio relatório, os videojogos estimulam “a aprendizagem de factos e habilidades como a reflexão estratégica, a criatividade, a cooperação e o sentido de inovação”. O relatório também referia que alguns videojogos podem não ser apropriados. Sobre este relatório na altura escrevi, "Vamos ser sérios, não conheço ninguém, especialista ou não, que diga que os videojogos fazem mal, conheço muita gente, eu próprio, que se inquieta com a falta de qualidade, com os conteúdos violentos e desadequados às crianças de muitos destes produtos que lhes estão acessíveis. Muitos de nós, especialistas ou não, inquietamo-nos com o tempo excessivo que muitas crianças e adolescentes passam sós, agarradas a um ecrã, numa espécie de teledependência pouco positiva. Esta preocupação não tem nada a ver com um entendimento definitivo de que os videojogos fazem mal. Existem excelentes videojogos que, naturalmente, serão úteis e positivos na vida dos miúdos, mas não se afirme que os videojogos fazem bem às crianças. É um mau serviço prestado aos miúdos e aos pais.
Ainda neste contexto, parece-me relevante sublinhar algo que a noticia também aborda, o impacto na qualidade vida dos adolescentes. Segundo alguns estudos, perto de 50% das criança até aos 15 anos terão computador ou televisor no quarto, além do telemóvel.
Acontece que durante o período de sono e sem regulação familiar muitas crianças e adolescentes estarão diante de um ecrã, pc, tv ou telemóvel. Com é óbvio, este comportamento não pode deixar de implicar consequências nos comportamentos durante o dia, sonolência e distracção, ansiedade e, naturalmente, o risco de falta de rendimento escolar num quadro geral de pior qualidade de vida.
Comer faz bem às crianças, mas comer excessivamente e produtos de má qualidade, provoca sérios problemas de saúde. Que se eduque o consumo, sem se diabolizar ou exaltar disparatadamente o produto.
Estas matérias, a presença das novas tecnologias na vida dos mais novos, são problemas novos para muitos pais, eles próprios com níveis baixos de alfabetização informática. Considerando as implicações sérias na vida diária importa que se reflicta sobre a atenção e ajuda destinada aos pais de forma a que a utilização imprescindível seja regulada e protectora da qualidade de vida das crianças e adolescentes.

sábado, 24 de julho de 2010

ESCOLAS GRANDES, ESCOLAS PEQUENAS, DE NOVO

Já por diversas vezes aqui me referi à questão da rede escolar e da dimensão das escolas. Face à decisão definitiva que parece ser assumida pelo ME na linha do “manda quem pode obedece quem deve”, princípio político em vigor, volto à questão.
Durante décadas de Estado Novo, tivemos um país ruralizado e subdesenvolvido. Em termos educativos e com a escolaridade obrigatória a ideia foi “levar uma escola onde houvesse uma criança”. Tal entendimento minimizava a mobilidade e a abertura sempre evitadas. No entanto, como é sabido, os movimentos migratórios e emigratórios explodiram e o interior entrou em processo de desertificação o que, em conjunto com a decisão de política educativa referida acima, criou um universo de milhares de escolas sobretudo no 1º ciclo, pouquíssimos alunos. Como se torna evidente e nem discutindo os custos de funcionamento e manutenção de um sistema que admite escolas com 2, 3 ou 5 alunos, deve colocar-se a questão se tal sistema favorece a função e papel social e formativo da escola. Creio que não e a experiência e os estudos revelam isso mesmo, escolas demasiado pequenas não proporcionam necessariamente melhores resultados. Neste quadro emerge a necessidade de redimensionar a rede de escolas.
É também verdade que muitas vezes se afirma que a “morte da escola é a morte da aldeia”. No entanto, creio que será, pelo menos de considerar, que os modelos de desenvolvimento económico e social possam começar a matar as aldeias e, em consequência, liquidam os equipamentos sociais, e não afirmar sem dúvidas o contrário.
No entanto, o processo de reordenamento da rede não pode ser realizado de forma administrativa e “cega”. Em primeiro lugar importa ponderar aspectos de natureza contextual, bem diferenciados nas diferentes zonas do país, como distância a percorrer, tipo de percurso e apoio logístico, condições obviamente importantes.
Aceitando, assim, o princípio da necessidade de ajustamentos na rede, importaria analisar os cenários desejáveis. O ME estabelece como média os 1700 alunos e como limite os 3000. Estes números são completamente comprometedores da qualidade e, portanto, inaceitáveis.
Conforme o Público referiu num importante trabalho há dias divulgado a dimensão excessiva da escola é um problema identificado, de há muito que se sabe que um dos factores mais contributivos para o insucesso, absentismo e problemas de disciplina é o efectivo de escola. Não é certamente por acaso, ou por desperdício de recursos, que os melhores sistemas educativos, lá vem a Finlândia outra vez, e agora os Estados Unidos na luta pela requalificação da sua educação optam por estabelecimentos educativos que não ultrapassam a dimensão média de 500 alunos. Sabe-se, insisto, de há muito que o efectivo de escola está mais associado aos problemas que o efectivo de turma, ou seja, simplificando, é pior ter escolas muito grandes que turmas muito grandes.
É fundamental que a comunidade tenha consciência deste universo de modo a tentar travar o movimento de construção de autênticos barris de pólvora e contextos educativos que dificilmente promoverão sucesso e qualidade apesar do esforço de professores alunos, pais e funcionários.
Não conheço nenhuma justificação de natureza educativa que sustente a existência vantajosa de escolas para crianças e adolescentes com 1500 lugares ou mais. A razão para a sua criação só pode, pois, advir da vontade de controlo político do sistema, menos escolas envolvem menos directores ou de questões economicistas que a prazo se revelarão com custos altíssimos pela ineficácia e problemas que se levantarão.
Há dias perguntava se ainda iríamos a tempo. Hoje creio que talvez não. É preocupante.

TESTES DE STRESS? SIM, A VIDA DE MUITOS MIÚDOS

Nos últimos dias tornou-se conhecida uma expressão que não me recordo de ver utilizada, testes de stress. A propósito da crise nos mercados financeiros realizaram-se aos bancos europeus os tais testes de stress, também chamados de resistência, para aferir da sua capacidade de resposta. Os resultados conhecidos sugerem que os bancos portugueses analisados se aguentaram ao stress. Deve ser bom, imagino.
Sendo, ao que parece, novo neste universo, os testes de stress são mais do que frequentes e conhecidos. A vida de muita gente, em particular dos miúdos e adolescentes, é um contínuo teste de stress.
Muitos miúdos passam o dia a saltitar entre actividades e a correr de espaço para espaço sem tempo para respirar.
Muitos miúdos vivem em famílias que experimentam tremendas dificuldades em assegurar patamares mínimos de bem-estar e qualidade de vida.
Muitas crianças são vítimas de maus-tratos e negligência que transforma a sua vida num inferno inaceitável.
Muitos miúdos e adolescentes são fortemente pressionados pelas famílias para a excelência do desempenho vivendo angustiadas perante o risco do fracasso e de se sentirem responsáveis por expectativas familiares defraudadas.
Muitos miúdos e adolescentes vivem em ambientes afectivamente hostis, ameaçadores da sua auto-estima e confiança quando não vitimizados pela fragilidade que demonstram.
Muitos adolescentes sentem-se perdidos e incapazes de construir um projecto de vida viável capaz de os rebocar até ao futuro.
Os exemplos poderiam crescer, mas parecem suficientes para mostrar o nível de especialização que muitas crianças, adolescentes e jovens já atingiram em testes de stress.
E só falei dos mais novos. No fundo e relativamente à banca, creio que sempre viveu, vive e viverá sem stress.

sexta-feira, 23 de julho de 2010

FINALMENTE, TAMBÉM AO DOMINGO À TARDE

Finalmente conseguiu-se, as grandes superfícies comerciais vão estar abertas aos Domingos e pode ser até à meia-noite, ouvi. Claro que existem sempre vozes que se levantam brandindo a retórica do costume, o impacto no pequeno comércio, o fomento do consumismo, os estilos de vida e o tempo das famílias, etc. Este argumentário é de uma ignorância confrangedora, esquece a relevância que as grandes superfícies comerciais e os centros comerciais que as acolhem assumem para a nossa qualidade de vida.
Para nós portugueses, um centro comercial não é apenas um espaço, maior ou menor, onde se realizam compras. Aliás, comprar o que quer que seja, está cada vez mais difícil por razões óbvias, daí as lojas com pouca gente e os corredores cheios. Um centro comercial é um espaço de ocupação de tempos livres. Como vários estudos mostram, Portugal tem um baixo consumo de actividades de lazer no exterior, de actividades desportivas e de actividades culturais. É nos centros comerciais que gastamos boa parte dos nossos tempos livres o que os transforma em excelentes ATLs. Para os reformados e, sobretudo, para a população escolar em tempo de férias são uma excelente alternativa para as famílias e com custos relativamente baixos, o hamburger e a cola para o almoço e a miudagem passa lá o dia. Com o fim dos cafés tradicionais os centros comerciais ocupam também uma boa parte desse espaço de convívio e tertúlia, quando precisamos de nos encontrar com alguém á fácil marcar o encontro para qualquer espaço no centro comercial com a enorme vantagem de ter estacionamento disponível. Os centros comerciais têm, com frequência os chamados hipermercados onde entramos para comprar um cestinho de bens e saímos a rebocar um carro a abarrotar de imprevistas compras, cujo preço as tornou irrecusáveis, ainda bem que entrámos, concluímos.
Uma outra razão prende-se com a falta de qualidade genérica da construção para habitação em Portugal. As nossas casas estão mal preparadas, quer para o frio, quer para o calor. Assim sendo, que melhor e mais confortável espaço para se passar o tempo que um climatizado centro comercial, com bancos para descanso, palmeiras em plástico, água a correr em fontes, sempre fresquinho no verão e quentinho no inverno.
Por este conjunto de razões, mais algumas haverá de que não me lembrei, um muito obrigado pela decisão, só espero que as autarquias não se armem em desmancha-prazeres.

O QUE QUERES SER QUANDO FORES VELHO?

Não, não é engano, é mesmo isso que queria escrever, não era que queres ser quando fores grande. Esta formulação talvez seja a pergunta que mais vezes é feita a miúdos e adolescentes. Acontece que os miúdos e adolescentes chegam a grandes, na sua grande maioria não são o que responderam à inevitável pergunta, mas a partir daí, estranhamente, ninguém mais pergunta ou se inquieta com o que um grande quer ser quando for velho. Acresce que hoje, felizmente, cada vez mais os grandes chegam a velhos.
Já sendo grande há uns anos e estando a bater à porta da velhice, interrogava-me sobre que quero eu ser quando for velho.
Bom, gostava de ser velho, ou seja, existir enquanto velho e com a qualidade de vida física funcional.
Costumo dizer que um dos privilégios da velhice é ter histórias para contar. Eu gostava de poder contar histórias. Gostava de contar histórias a gente mais nova, não para ensinar, ensinar é tarefa para grandes, pais e professores, não é para velhos. As histórias dos velhos são para ouvir e conversar, não são para aprender.
Outro privilégio que a velhice traz é assim uma espécie de inimputabilidade, podemos dizer e fazer coisas estranhas que as pessoas aceitam e dizem de forma condescendente, é velho, às vezes até acham graça. Deve ser bom poder dizer e fazer, quase, o que nos vem à cabeça. Quando for velho quero ser assim.
Quando for velho quero ter o tempo, não o tempo do dever, mas o tempo do querer, embora acredite que quando se é velho o tempo parece mais pequeno. Também gostava que os que já foram pequenos comigo, ficaram grandes ao pé de mim, também permanecessem por perto quando forem velhos.
Não parece assim grande coisa, mas eu acho que os velhos só ligam ao essencial.

quinta-feira, 22 de julho de 2010

O ACESSO AO ENSINO SUPERIOR

Segundo o CM a Confap vai propor ao Ministro Mariano Gago a revisão do papel dos exames nacionais do ensino secundário no acesso ao ensino superior.
Parece-me positivo alterar o sistema em vigor contra o qual me pronuncio há muito.
Os exames nacionais destinam-se, conjugados com a avaliação realizada nas escolas, a avaliar e certificar o trabalho escolar produzido pelos alunos do ensino secundário e que, obviamente, está sediado no ensino secundário.
O acesso ao ensino superior é um outro processo que deveria se ser da responsabilidade do ensino superior e estar sob a sua tutela.
A situação existente, não permite qualquer intervenção do ensino superior na admissão dos seus alunos, a não ser a pouco frequente definição de requisitos em alguns cursos, o que até torna estranha a passividade aparente por parte das universidades sempre tão ciosas da sua autonomia. Parece-me claro que o ensino superior fazendo o discurso da necessidade de intervir na selecção de quem o frequenta não está interessado na dimensão logística e processual envolvida.
Os resultados escolares do ensino secundário deveriam constituir apenas um factor de ponderação a contemplar nos processos de admissão organizados pelas universidades como, aliás, acontece em muitos países.
Sediar no ensino superior o processo de admissão minimizaria muitos dos problemas conhecidos decorrentes do facto da média do ensino secundário ser o único critério utilizado para ordenar os alunos no acesso. Todos nós conhecemos os clássicos exemplos de alunos que se dirigem a medicina porque as suas altíssimas notas assim o sugerem, acabando por reconhecer não ser esse o seu caminho e, por outro, um potencial excelente médico que deixará de o ser porque por três vezes ficou a décimas da média de entrada.
Veremos a reacção da tutela do ensino superior à proposta da Confap.

O ESTATUTO DO ALUNO - algumas notas

Não tendo tido oportunidade de conhecer o texto do Estatuto do Aluno que hoje será aprovado no Parlamento, apenas umas notas sobre o que é conhecido publicamente.
Parece-me importante que se reponha a existência da falta injustificada. Não era possível, do me ponto de vista, sustentar o sinal contido no Estatuto em vigor da irrelevância das faltas. Acresce a este sinal a existência, que agora também , de umas incompreensíveis e inúteis provas de recuperação que constituíam um desperdício de esforço e burocracia por parte dos professores sem qualquer resultado significativo na qualidade do trabalho de alunos e de professores.
Parece-me também positivo o caminho de agilização dos procedimentos face a incidentes de natureza disciplinar. Ao que parece são estabelecidos prazos mais curtos de análise e tomada de decisões face a episódios verificados.
Apesar de haver quem discorde, parece-me também positiva a responsabilização do aluno pelos seus comportamentos, ressarcindo a escola por danos do património ou através da realização de serviços na comunidade escolar. Importa que estes casos não sejam analisados de forma administrativa e burocratizada mas de forma individual e, portanto, diferenciada.
Como também já tenho referido temos assistido a alterações na percepção dos traços de autoridade das figuras sociais, o que inclui, naturalmente, os professores. Assim, medidas que reforcem a percepção de autoridade na figura do professor irão também no caminho certo.
Finalmente, creio, ao que percebi, que continua ausente a existência de dispositivos de apoio, recursos humanos por exemplo, que contribuam para a gestão mais eficaz de problemas de indisciplina e absentismo. A complexidade de muitas das situações, os professores têm uma profunda consciência desta dimensão, exigem respostas que estão para lá do trabalho do professor em sala de aula ou do exercício de autoridade do director por mais competentes que sejam. Assim, a existência de recursos multidisciplinares, dentro da escola, alguns, ou ao alcance da escola, outros, são peças fundamentais para com mais sucesso fazer face aos problemas no âmbito do comportamento que, é preciso não esquecer, existirão enquanto houver escola, apenas se actualizam e acompanham as mudanças sociais, culturais e nos sistemas de valores.

PROJECTO DE VIDA E EMPREGABILIDADE

Nesta altura em que decorre o período de candidaturas ao ensino superior são recorrentes os discursos e a divulgação de dados sobre a empregabilidade. Identificam-se algumas áreas de baixa ou difícil empregabilidade e apontam-se outras com melhores perspectivas de emprego.
Antes de entrar no ponto que hoje me interessa focar, duas notas. Em primeiro lugar, é notório que existem áreas em que a oferta de formação é claramente excessiva. Como muitas vezes já aqui referi, a responsabilidade decorre da negligência e da demissão da tutela política da regulação da oferta de formação de nível superior, pública e privada, universitária e politécnica. Seria de exigir que essa função de regulação fosse cumprida minimizando as consequências do enviesamento da oferta e da impossível qualidade de toda a que existe.
Uma segunda nota para, repito-o pela enésima vez, chamar a atenção para o facto de termos metade da média europeia de pessoas com formação superior. Não podemos produzir discursos que levem os jovens ou adultos a entender que uma formação de nível superior é um passaporte para o desemprego, é um discurso suicidário.
Dito isto, creio que nesta altura se deve sublinhar que a imprescindível informação sobre o nível de empregabilidade do curso que se desejaria fazer é apenas, repito, apenas, um dos critérios de escolha a ter em conta. Parece-me absolutamente estranho que alguém abdique de um projecto de vida dedicado a algo de que gosta e em que se imagina a trabalhar porque pode não encontrar emprego depois da formação. É absolutamente legítimo e desejável que alguém assuma o sonho de ter a profissão que o atrai e motiva, a entrada no mercado de trabalho virá depois. Muitas pessoas que clamam pela sobrevalorização da empregabilidade não teriam, certamente, abdicado do percurso que fizeram mesmo se, quando o iniciaram, soubessem que o emprego não estava garantido, ou mesmo, seria difícil.
Assim, parece-me que, para além da empregabilidade, mesmo em áreas identificadas como de baixa saída, importa estar informado sobre a qualidade das instituições formadoras, corpo docente e credibilidade por exemplo, ou sobre a natureza, conteúdos e opções em matéria de currículos e diversidade de formação.
Só alguns, poucos, receberão por mérito ou outros motivos não despiciendos em Portugal, a designada "golden call", ou seja, um telefonema à saída do curso a oferecer um excelente emprego. Todos os outros terão de lutar pelo seu sonho, começando pelo direito a tê-lo.

quarta-feira, 21 de julho de 2010

NÃO SE ESQUEÇAM QUE EDUCAÇÃO E SAÚDE NÃO SÃO GRATUITAS

A proposta de revisão constitucional apresentada pelo PSD desencadeou um alarido que não tem fim. Não estou particularmente interessado nas propostas referentes à organização política, creio que não introduz nada que contrarie a "partidocracia" instalada o que, aliás, não será surpresa.
Do meu ponto de vista, as questões relativas à gratuitidade e universalidade do acesso à educação e ao serviço nacional de saúde são mais relevantes. O PSD quer retirar o "tendencialmente gratuito" na educação e quanto à saúde propõe que a ninguém seja negado o acesso a cuidados de saúde por questões económicas.
Sou dos que na tradição do estado social, entende dever estar garantido constitucionalmente a gratuitidade e universalidade no acesso à educação pública e a existência de um serviço nacional de saúde gratuito, embora aceite a introdução de modelos complementares ou alternativos em matéria de segurança social e saúde por iniciativa dos cidadãos, bem como me parece importante a existência de ensino privado.
Dito isto e face ao que tem sido afirmado, gostava de chamar atenção para dois ou três aspectos. Em primeiro lugar, é bom não esquecer que, em temos práticos e no quadro actual, o acesso à educação está longe de ser gratuito e é permeável à discriminação por questões económicas apesar da acção social escolar. Só a título de exemplo, o preço dos manuais e dos obrigatórios livros que os acompanham, o custo da quantidade enorme de material que é solicitado às famílias torna difícil o entendimento de gratuitidade. Muitas famílias experimentam sérias dificuldades para proporcionarem condições básicas de equidade e igualdade de oportunidades aos seus filhos.
No que respeita à saúde, também no quadro actual e apesar dos apoios, o acesso aos cuidados de saúde está também longe da gratuitidade. Para muita gente, sobretudo na população mais idosa com pensões baixíssimas, é frequente a não utilização, quer de consultas quer de medicação por razões económicas. Diferentes estudos e a comunicação social mostram regularmente situações deste tipo.
Parece-me óbvio que o edifício normativo e constitucional se actualize, no entanto e apesar do quadro actual de dificuldades, creio ser bem mais importante que se atente no cumprimento dos direitos e da legislação do que alimentar uma retórica inconsequente que não passa de jogo político.

OS FILHOS DOS NUMBER ONE

Na Pública do passado Domingo li com algum interesse um trabalho sobre uma figura pública de incontornável referência nos tempos que correm, Zeinal Bava o CEO da PT. O trabalho mostrava, para além da faceta de gestor reconhecido e premiado, um lado mais pessoal que sublinhava a importância que o senhor atribui à família, designadamente, a relação com os filhos. Sobre esta questão, diz-se, "tem a preocupação de evitar que se deslumbrem" porque "eles, mais tarde, podem não ter a mesma capacidade financeira do pai", avisada ideia. Logo a seguir afirma-se que "só lhes impõe uma condição: não importa que profissão escolham no futuro, desde que estejam sempre entre os três melhores". Aqui parei e pensei no tormento que pode ser a vida de alguns filhos destes number one.
O number one Zeinal Sr. Bava, apesar de tudo, não parece ser particularmente exigente, basta-lhe um lugar no pódio, não tem que ser o primeiro, para além de que, sendo de uma esmagadora amplitude, é-lhe indiferente que os filhos possam ser o terceiro melhor electricista ou o melhor gestor embora eu não tenha percebido a escala, será da cidade, do país, do continente, do mundo?
Talvez o number one Zeinal Bava não concorde, mas o sucesso na vida das pessoas dependendo certamente dos seus méritos e esforços, depende de muitas outras variáveis entre as quais a sorte, como, aliás, ele próprio reconheceu no trabalho jornalístico.
Talvez o number one Zeinal Bava não compreenda ou concorde, mas existem miúdos que, por variadas razões, não aguentam a pressão para serem os melhores, mesmo num modesto terceiro lugar. Talvez não saiba, até que muitas histórias de pressão deste tipo têm finais tristes. Esta questão não tem a ver, obviamente, com o natural e desejável incentivo dos pais para que os miúdos progridam.
Não tenho nenhum preconceito ou reserva contra os number one, antes pelo contrário, em muitos casos admiro as suas competências e realizações, apenas me preocupa o inferno em que se pode transformar a vida dos filhos de alguns number one, conheço situações desta natureza, vale a pena estar atento.

terça-feira, 20 de julho de 2010

BAIRROS SOCIAIS E COMUNIDADE

O I divulga um trabalho muito interessante, realizado pelo Instituto de Sociologia da Universidade do Porto, sobre os chamados bairros sociais da cidade onde vivem cerca de 50 000 pessoas, 20% da população quando a média nacional é de 4%.
Antes de umas notas sobre o trabalho um pormenor sobre o tão usado termo "bairros sociais" que acho engraçado. Um bairro é por definição uma estrutura social pelo que falar de bairros sociais implica a existência de bairros que não são sociais, ou seja, não seriam bairros. Mas como todos sabemos o significado atribuído a "bairro sociais" voltemos ao estudo.
O que é mais interessante, do meu ponto de vista, e eventualmente menos esperado, tanto que o jornal puxa esse dado para título é o facto de a maioria dos inquiridos residentes em bairros sociais não quererem de lá sair apesar de reconhecerem dificuldades e problemas como delinquência associada quase sempre a tráfico de droga. Os habitantes apresentam baixos níveis de escolaridade e índices significativos de desemprego.
O facto de a maioria das pessoas inquiridas não querem sair do bairro mostra, do meu ponto de vista, exactamente a característica social dos bairros, isto é, a promoção de um sentimento de comunidade e de pertença que para pessoas mais vulneráveis e com menos autonomia devido à baixa escolarização e qualificação profissional, constitui um bem de primeira necessidade. Muitas vezes, em diferentes circunstâncias, ouvimos pessoas residentes em bairro sociais problemáticos defender o bairro e apontar as causas dos problemas ao que vem de fora, sublinhando sempre que esmagadora maioria dos habitantes do bairro são muita boa gente. Também é importante salientar que este sentimento de comunidade e de pertença se alimenta das relações de vizinhança que ainda se estruturam nos bairros e que são uma mais valia num quadro de dificuldades.
O grande desafio que as políticas de urbanismo e habitação colocam é como criar e manter nos tempo que correm, estruturas e equipamentos residenciais que preservem e promovam relações de vizinhança, sentimento de comunidade e pertença, mas que se construam fora de um quadro de guetização fonte de problemas e discriminação.

AS PESSOAS SOL

Creio que a maioria de nós ao longo da narrativa que vai escrevendo já se cruzou com pessoas que, por uma razão ou por outra, ficam para sempre connosco.
Por vezes, acho que nem sabemos explicar porquê, apenas sentimos que são boas para nós, fazem-nos bem. Existe uma espécie de indizível razão, ou razões, para que isso aconteça. Chamo-lhes Pessoas Sol.
Apesar da banalidade da imagem, peço desculpa, quase sempre têm a enorme capacidade de tornar claro, de iluminar o mundo através dos seus olhos e das suas falas. São assim uma espécie de bússola ou, quando à distância, uma espécie de farol que baliza o rumo. Também funcionam como porto de abrigo a que voltamos quando as águas da vida andam mais turbulentas
São pessoas que sempre nos ocorrem quando o mundo pesa e pensamos, fazia-nos falta a Pessoa Sol. Acontece até que talvez nem precisassem de falar, basta que estivessem e o mundo pareceria melhor.
Tenho a certeza que as Pessoas Sol para conseguirem iluminar por fora, para fora, são iluminadas por dentro, são sábias, são mestres, são serenas. São tão sábias que são capazes de nos mostrar o que nunca viram.
Hoje, lembrei-me do meu pai e da minha avó Leonor, duas Pessoas Sol que me mostraram a minha estrada e há muito que cumpriram a sua.

segunda-feira, 19 de julho de 2010

ESCOLAS GRANDES, PROBLEMAS MAIORES, RESULTADOS MENORES

Finalmente e felizmente. O Público de hoje aborda a questão da dimensão da escola e do seu impacto na qualidade do trabalho educativo de alunos e professores. Faltava este tipo de informação na opinião publicada sobre esta matéria.
Desde sempre aqui tenho defendido que apesar de ser necessária uma reorganização da rede escolar porque escolas de reduzidíssima dimensão, para além dos custos, não cumprem a sua função social com qualidade, seria absolutamente desejável que se não enveredasse pela criação de mega escolas ou mega agrupamentos. O ME estabelece como média os 1700 alunos e como limite os 3000. Estes números são completamente comprometedores da qualidade e, portanto, inaceitáveis.
De há muito que se sabe que um dos factores mais contributivos para o insucesso, absentismo e problemas de disciplina é o efectivo de escola. Não é certamente por acaso, ou por desperdício de recursos, que os melhores sistemas educativos, lá vem a Finlândia outra vez, e agora os Estados Unidos na luta pela requalificação da sua educação optam por estabelecimentos educativos que não ultrapassam a dimensão média de 500 alunos. Sabe-se, insisto, de há muito que o efectivo de escola está mais associado aos problemas que o efectivo de turma, ou seja, simplificando, é pior ter escolas muito grandes que turmas muito grandes.
É fundamental que a comunidade tenha consciência deste universo de modo a tentar travar o movimento de construção de autênticos barris de pólvora e contextos educativos que dificilmente promoverão sucesso e qualidade apesar do esforço de professores alunos, pais e funcionários.
Não conheço nenhuma justificação de natureza educativa que sustente a existência vantajosa de escolas para crianças e adolescentes com 1500 lugares ou mais. A razão para a sua criação só pode, pois, advir da vontade de controlo político do sistema, menos escolas envolvem menos directores ou de questões economicistas que a prazo se revelarão com custos altíssimos pela ineficácia e problemas que se levantarão.
Ainda iremos a tempo?

A MINHA ESCOLA É MELHOR QUE A TUA, OUTRO DIÁLOGO IMPROVÁVEL

A minha escola é melhor que a tua, não tem repetentes.
A minha escola é melhor que a tua, também tem alunos com notas muito altas.
A minha escola é melhor que a tua, tem professores muito bons.
A minha escola é melhor que a tua, também tem professores fixes.
A minha escola é melhor que a tua, tem autocarros para nos ir buscar e levar para casa.
A minha escola é melhor que a tua, a gente pode ir a pé e diverte-se.
A minha escola é melhor que a tua, a gente porta-se bem.
A minha escola é melhor que a tua, a gente não tem farda.
A minha escola é melhor que a tua, não tem alunos esquisitos.
A minha escola é melhor que a tua, também tem alunos que são fixes.
A minha escola é melhor que a tua, tem montes de actividades para a gente fazer.
A minha escola é melhor que a tua, não tem montes de actividades para a gente fazer.
A minha escola é melhor que a tua, mas eu não gosto muito da minha escola.
A minha escola é melhor que a tua, mas eu também não gosto muito da minha escola.

domingo, 18 de julho de 2010

DESPUDOR ÉTICO

A notícia sobre a declaração de ilegalidade nos processos de colocação de professores no Instituto Politécnico de Castelo Branco sob a responsabilidade do delinquente ético Valter Lemos não surpreende, aliás, a situação remonta a 2005 e já era conhecido o protesto sobre os concursos. O mais recente episódio da nomeação para Delegado na Região Norte do IEFP de um seu ex-assessor no ME sem qualquer espécie de mérito curricular para a função que não o compadrio e a fidelidade, apenas demonstra o despudor ético em que a sinistra personagem vive e da impunidade com que estas coisas são encaradas.
No entanto a situação agora noticiada não é, longe disso, situação inédita. A rede do Ensino Superior Público Politécnico, dada a sua implantação nacional e numerosa é, de há muito, um palco apetecível para os jogos de poder regionais e espaço de acolhimento para uma fauna emergente dos aparelhos partidários locais. O modelo de carreira docente no Politécnico, os modelos de gestão que têm estado em vigor há décadas, permitem que, apesar da excelência de muitos professores, dirigentes e funcionários, também por lá habitem inúmeros incompetentes cujo mérito é conhecerem as pessoas certas e possuírem o cartão certo em tempo oportuno. Apenas algumas destas situações caem no escrutínio público alargado, mas em termos locais são bem conhecidas.
O que ainda me embaraça mais é a normalidade com que o Sr. Dr. Lemos entende explicar a situação.
Faz de conta que é um concurso, eu faço de conta que sou isento e tu fazes de conta que és competente.
E nós fazemos de conta que acreditamos.

sábado, 17 de julho de 2010

CHEQUE- BEBÉ? ERA A BRINCAR

Há sensivelmente um ano, o Governo anunciou com a pompa e circunstância do costume uma medida emblemática de promoção da natalidade e de reforço das políticas de apoio à família, um cheque de 200 € para cada bebé para criar uma Conta Poupança Futuro mobilizável aos 18 anos. Na altura escrevi, “Portugal é na Europa a 15 o penúltimo país em investimento nos apoios às famílias. O nosso valor representa 1,2% do PIB enquanto a média é de 2,1%. É certo que os tempos são de crise e de dificuldade na despesa pública mas considerando o inverno demográfico e as dificuldades que muitas famílias enfrentam que, muitas vezes, são foco de desestabilização, o investimento em apoios às famílias seria seguramente um investimento reprodutivo, o melhor dos investimentos.
Neste universo, sabemos, já o referi várias vezes aqui no Atenta Inquietude, que os salários baixos são uma das razões que “obrigam” a que as famílias revejam em baixa, como agora se diz, os projectos relativos a filhos. Por outro lado, Portugal tem um dos mais elevados custos de equipamentos e serviços para crianças o que, naturalmente, é igualmente um obstáculo para projectos de vida que envolvam filhos.
As mulheres portuguesas são das que mais tempo trabalham fora de casa. Além disso, não pode esquecer-se a discriminação salarial de que muitas mulheres, sobretudo em áreas de menor qualificação, são ainda alvo e a forma como a legislação laboral e a sua “flexibilização” as deixam mais desprotegidas. São conhecidas muitas histórias sobre casos de entrevistas de selecção em que se inquirirem as mulheres sobre a intenção de ter filhos, sobre casos de implicações laborais negativas por gravidez e maternidade, sobre situações em que as mulheres são pressionadas para não usarem a licença de maternidade até ao limite, etc.
Toda esta situação torna urgente a definição de políticas de apoio à família com impactos a curto e médio prazo como, por exemplo, a acessibilidade aos equipamentos e serviços para a infância com o alargamento da resposta pública de creche e educação pré-escolar, cuja oferta está abaixo da meta estabelecida. Parece também importante a existência de serviços, por exemplo, nos Centros de Saúde de apoio e mediação familiar. É importante combater a discriminação salarial e de condições de trabalho através de qualificação e fiscalização adequadas.
Pode parecer disparate mas acho que se poderia investir na construção de redes comunitárias de apoio e guarda das crianças, aproveitando, por exemplo, os seniores que estão sós, desocupados e cheios de vontade de ser úteis a “filhos” e a “netos” que deles precisem. Este caminho parece bem mais eficaz que a atribuição de 200 € para a criação de contas a prazo mobilizáveis após 18 anos”.
Um ano depois, nenhum cheque foi atribuído, nenhuma “Conta Futuro” foi criada e o Ministro Silva Pereira fala em acerto de calendário. Esta medida não tem a ver com questões de calendário, nem se relaciona directamente com a crise. A medida não serve rigorosamente para nada, nem demagógica e populista chega a ser.
Continuam, isso sim, a ser imprescindíveis medidas políticas acertadas de apoio às famílias.

AO PERTO E AO LONGE

Um dia desta semana cumpri o ritual anual da consulta da medicina do trabalho, uma boa invenção. Entre as observações e exames por que passo conta-se um rastreio visual. Lá me esforço por disfarçar limitações e fui brindado com um forte elogio à minha visão ao longe. Acho mesmo que, passe a imodéstia, impressionei a técnica, "100% por cento de visão com os dois olhos, é muito bom na sua idade", disse. É claro que fiz de conta que não ouvi a simpática referência à idade que, pelos vistos, já me deveria ter condenado a ver mal ao longe, tal como vejo mal ao perto.
Fiquei a pensar e gostava de poder trocar. Gostava de ver bem ao perto, o que está perto cada vez me parece mais mal, não gosto de muito do que vejo por perto Mesmo com a mudança de lentes o que anda por perto não me parece bem.
Por outro lado, não me adianta muito ver bem o que está longe, está longe, ainda não está próximo. Quando estiver próximo certamente passarei a ver mal.
Não sei como poderei resolver este problema.
Bom, tenho sempre a possibilidade de fechar os olhos ou fingir que não vejo. É uma questão de experimentar. Para muita gente funciona.

sexta-feira, 16 de julho de 2010

A DERIVA

Como era previsível, a polémica medida de permitir, a título excepcional para este ano, que alunos reprovados no 8º ano se pudessem propor a exame do 9º, não surtiu efeito. Também fui dos que antecipei, não era difícil, este resultado. O ME confirma agora que nenhum aluno nestas condições concluiu o 9º ano.
De facto, como muitos dissemos, dificilmente um aluno com insucesso no 8º e sem frequentar o 9º poderia aparecer minimamente preparado para os exames. Poderia eventualmente acontecer, por milagre ou descoberta súbita de motivações e capacidades não utilizadas.
Depois do processo concluído fica então a questão. Sendo previsível o seu fracasso, sendo a medida onerosa para o ME pelo impacto, polémica e sinais de facilidade que passava, porquê a sua apresentação?
Do meu ponto de vista, só a entendo como mais uma evidência da forma reactiva, voluntarista e à deriva como esta equipa do ME tem vindo a actuar. As medidas aparecem sem coerência, reagindo a aspectos particulares e dispersos, com insuficiente análise de adequação, eficácia e impacto, criando ruído, turbulência e problemas que o universo da educação tem que baste.
Uma medida que desde o início pareceu uma mão cheia de coisa nenhuma, acabou, naturalmente, num mão cheia de nada.

MIÚDOS COM FOME, OLHEM QUE EXISTEM

Os dados do INE sobre condições de vida, a que ontem me referi e que o Público hoje chama para primeira página, identifica as crianças e os desempregados como os grupos mais vulneráveis ao risco de pobreza. Não é novo, apenas se confirma a situação. Os dados do INE também analisam o impacto das transferências sociais no risco e situação de pobreza. Desde a discussão do PEC que me parece um ataque à inteligência e à dignidade das pessoas o peso colocado na redução dos custos com políticas sociais como forma de equilibrar as contas públicas.
Hoje, outra notícia que, lamentavelmente, já não surpreende mas que exige atenção.
O Governo manifestou a intenção de cortar nos apoios para alimentação das crianças que frequentam ATLs de Instituições de Solidariedade Social. Ouvi na rádio que existirão em algumas situações eventuais sobreposições de apoios vindo do ME e da Segurança Social. Se tal se verificar que se corrija, mas é impensável, sabendo-se a situação de enorme vulnerabilidade em que milhares de crianças vivem, ameaçar o seu direito à alimentação. Certamente que alguns dos decisores não sabem que existem muitas crianças que têm como única refeição digna desse nome a que usufruem nos ATLs.
Não me orgulho particularmente disto, mas não acredito que gente que tem sido parte do problema venha a ser parte da solução. Ninguém, apesar da retórica, está verdadeiramente interessado em medidas que equilibrem as contas públicas da forma acertada, reformar a organização do estado, autarquias e governos civis por exemplo, ou promover equidade fiscal, designadamente no IRC (a banca continua e continuará independentemente do governo que se instale em situação de escandaloso benefício). Ninguém está verdadeiramente interessado em eliminar as centenas de organismos, entidades, fundações, empresas municipais inúteis e consumidoras de milhares de milhões. Ninguém está verdadeiramente interessado em emagrecer gabinetes e organismos onde se atropelam as clientelas dos aparelhos partidários. Esta situação foi alimentada e promovida por todos os partidos que já ocuparam poder, repito, por todos os partidos.
Não estou muito optimista de que do actual quadro político, a partidocracia, possa emergir uma solução, creio que só uma renovação da participação cívica dos cidadãos, desconfiados e descrentes na classe política, poderá, creio, pressionar a mudança.
No entanto, quanto mais não seja por uma questão de dignidade e solidariedade, bens em desuso nas tomadas de decisão política, não ameacem mais o bem-estar dos miúdos.
Talvez não saibam mas há miúdos que passam fome, vão crescer mal.

O HOMEM QUE VENDIA TRANQUILIDADE

Era uma vez lá naquela terra onde acontecem coisas um Homem que gostava de ser vendedor e queria ser rico, muito rico. Para tal começou a pensar no que poderia vender que as pessoas precisassem bastante pois, se assim fosse, a riqueza seria grande e rápida.
O Homem pôs-se então durante algum tempo a observar e a ouvir como era a vida das pessoas daquela terra. Chegou à conclusão que uma das coisas mais precisas parecia ser tranquilidade. De facto, parecia-lhe óbvio que a grande maioria das pessoas da terra precisavam muito de tranquilidade. Quase só alguns miúdos felizes que ainda a não tinham perdido e alguns velhos felizes que já a tinham ganho, pareciam não precisar de tranquilidade.
Pediu então aos velhos felizes que lhe fornecessem toda a tranquilidade que pudessem e inaugurou a primeira loja onde se vendia tranquilidade. Durante os primeiros dias o sucesso ultrapassou as melhores expectativas. Ainda antes da loja abrir muita gente se acotovelava à espera e durante todo o dia, todos os dias, as pessoas não paravam de aparecer levando o Homem a temer que se acabasse a sua provisão de tranquilidade.
Só que passado algum tempo começou a aparecer gente a protestar, cada vez em maior número. As pessoas protestavam porque continuavam a não se sentir tranquilas, apesar de toda a tranquilidade que compravam. Refilavam que a tranquilidade que o Homem vendia não tinha alterado a sua vida.
O Homem tinha-se esquecido de incluir um Manual de Instruções e as pessoas já não sabiam como usar a tranquilidade, mesmo quando a tinham ali mesmo à beira.

quinta-feira, 15 de julho de 2010

PEC - Pobreza, Exclusão e Coesão

Os dados provisórios disponibilizados pelo INE, divulgados no Público, relativos ao Inquérito às Condições de Vida e Rendimento, mostram que se fossem apenas considerados “os rendimentos do trabalho, de capital e transferências privadas, 41,5 por cento dos portugueses estaria em risco de pobreza em 2008, mais 1,5 por cento que no ano anterior. Para 2009, a previsão é igual à de 2008”. É importante também registar que as transferências sociais atenuam em 6.5% a população em risco de pobreza. Os dados mostram ainda a persistência da escandalosa assimetria, os rendimentos médios do 20% mais ricos são seis vezes superiores aos dos mais pobres.
No âmbito do PEC, apesar de não ser especialista (que, aliás, não parece servir de muito, a ver pelos resultados), consigo perceber que equilibrar contas passa, naturalmente, por reduzir despesas e, se possível, aumentar receitas. Isto não tem nada de transcendente, a questão é como. Aqui já podemos começar a pensar em diferentes opções. O Governo estabeleceu que, da poupança global a atingir, 28,3%, cerca de 3,9 mil milhões de euros, se verificará nas chamadas despesas sociais, segurança social, pensões e saúde e ainda que 9,4% da poupança global advirá da restrição de benefícios e deduções fiscais que atingirão rendimentos salariais superiores a 500 €.
Sou das pessoas que entendem a necessidade de contenção em questões de salários mas tenho a maior a dificuldades em perceber algumas destas opções. É evidente que em termos operacionais é mais fácil para administração poupar nos gastos sociais do que aumentar o IRC da banca ou aumentar a taxa sobre os lucros de algumas empresas de capitais públicos como a GALP ou a EDP ou combater o desperdício e eliminar estruturas e entidades inúteis e gastadoras, mas que diabo, mexer desta forma nas despesas sociais poderá ter em muitas famílias efeitos brutais, alterar benefícios e deduções fiscais em rendimentos na casa dos 500 € poderá ter implicações severas em famílias já sobre endividadas.
Sabemos todos que, mesmo na áreas da despesas sociais, existe desperdício e fraude que devem ser combatidas o que é diferente de um corte cego e significativo num tempo de fortíssima crise, com um nível recorde de desempregados e, coincidência, em pleno Ano Europeu de Combate à Pobreza e Exclusão Social.
Deve ser certamente por ignorância mas creio que o caminho para o crescimento e estabilidade não têm que necessariamente ser pago pelos mais vulneráveis e desprotegidos, os destinatários das despesas sociais. Acho que isto compromete uma outra questão central em matéria de estabilidade e crescimento, coesão social e equidade.
Se olharmos para os dados agora conhecidos de 2008, as perspectivas sobre os dos de 2009 e seguintes não são animadoras.

OS CHUMBADOS E TAMBÉM OS ABANDONADOS

Todos os anos por esta altura é criado um novo grupo social na educação, os chumbados, isso mesmo, os chumbados, os que não passaram de ano.
É um grupo composto por gente de idade variada e uma boa parte já pertencia ao grupo, apenas é reconduzido como membro no final do ano. Alguns já são mesmo muito experientes, são chumbados várias vezes, no mesmo ou em diferentes anos. Alguns outros entram pela primeira vez e vão experimentar este novo estatuto, o de chumbado, também há quem lhes chame repetentes ou, coisa mais fina, retidos.
Muitos deles, mais novos ou mais velhos, vão habituar-se ao estatuto que se lhes colará à pele, transformando-se numa condição.
Alguns pais dos novos chumbados ficarão certamente aborrecidos mas não surpreendidos, o chumbo raramente é uma surpresa, é uma crónica anunciada de que apenas se aguarda a confirmação. E ela chega. Alguns outros pais vão tentar o possível e o impossível para que os seus filhos abandonem o grupo dos chumbados. Oxalá consigam, não é fácil.
Muitos dos chumbados, sobretudo os chumbados mais experientes vão procurar mostrar que lhes é indiferente a pertença ao grupo. Não é verdade, não acreditem, ninguém com saúde gosta de fracassar. Querem convencer-se e convencer-nos de que lhes é indiferente o chumbo numa tentativa ingénua de se sentirem melhor.
De entre os chumbados emerge ainda um grupo mais pequeno que passa à clandestinidade educativa, são os abandonadores, os que compõem a inaceitável estatística do abandono. Nunca percebo muito bem o sentido do abandono, ou seja, quem abandona quem, são os miúdos que abandonam a escola ou a escola que abandona os miúdos.
Depois de férias, quando os chumbados voltarem, se voltarem, não vão encontrar o encanto que o novo pode ter. Para os chumbados quase tudo será velho, os mesmos livros, as mesmas tarefas, para muitos os mesmos professores. Para que possam partilhar experiências algumas escolas juntam os chumbados na mesma turma em cada ano, esquecendo o óbvio "junta-te aos bons e serás com eles, junta-te aos maus e serás ...", sabem o resto. Aqui, como em muitas outras circunstâncias, o tempo nem sempre cura, por isso, alguns irão certamente chumbar outra vez.
Muita gente acha que deveria haver mais chumbados, muitos mereciam ser chumbados e não foram, dizem, e mais curioso ainda, muitos acham que é normal haver chumbados. Peço desculpa, o normal num miúdo que tem condições para aprender é, isso mesmo, aprender. Podemos, como é óbvio, não conseguir que todos aprendam, que todos passem, mas chumbar, mesmo que seja só um, NÃO é normal, tal como NÃO é normal não querer aprender.
O problema maior é que muitos dos chumbados continuarão a afundar-se. Como sabem, o chumbo é um material que pesa muito, impede que se suba, na vida, por exemplo.

quarta-feira, 14 de julho de 2010

OS RESULTADOS DOS EXAMES, AS QUESTÕES DO COSTUME

De há muito tempo que o alarido instalado sobre os exames nacionais e os seus resultados acaba por esbater a urgência da correcta análise e significado dos resultados. O Ministério deveria divulgar a totalidade dos resultados, de forma diferenciada, e não apenas as notas globais sob pena de se inviabilizar a definição do que poderíamos chamar de "perfil de insucesso", ou seja, em que aspectos objectivamente os alunos evidenciam menor competência. Só o conhecimento destes dados permitiria a estruturação de medidas adequadas às dificuldades encontradas.
No caso da Matemática no 9º ano subiram significativamente as negativas, passaram de 34.2% em 08/09 para 48.7% este ano, 09/10. As justificações destas oscilações bem como da subida de dos resultados positivos de há dois anos centram-se sobretudo na maior ou menor dificuldade dos exames. De um lado, as associações científicas e profissionais a sustentarem a excessiva facilidade e, do outro, o ME a defender a sua adequação. Desta discussão, creio, pouco de positivo decorrerá, as agendas que as informam são pouco compatíveis.
Parece também poder concluir-se que o Plano de Acção para a Matemática não está a produzir os efeitos desejados o que também deveria ser, obviamente, objecto de análise e avaliação.
Neste quadro e com o clima instalado parece-me fundamental que, como disse acima, fossem divulgados os resultados dos exames por questão para que se pudessem estudar e estabelecer com rigor e conhecimento o perfil de dificuldades genéricas dos alunos o que, assim, sustentaria o desenvolvimento de programas ou dispositivos de apoio essas dificuldades. Por outro lado, parece-me também desejável que, tal como se passa em alguns países e diferentes especialistas defendem, os exames fossem elaborados por uma estrutura exterior ao Ministério da Educação.
Se não caminharmos neste sentido, creio que no próximo ano cá nos encontraremos com os discursos do costume.

PAI E FILHO, OUTRO DIÁLOGO IMPROVÁVEL. SOBRE FÉRIAS

Já resolvemos o problema das tuas férias Francisco.
Mas qual é o problema das minhas férias pai?
Então, o que vais fazer nas férias até nós também ficarmos.
Mas pai, as férias são para não fazer, já reparaste que se chamam férias.
Não comeces, não podes estar tanto tempo sem fazer nada.
Mas eu não estou a pensar estar sem fazer nada, apenas estava a pensar estar de férias.
Sim, mas tens que estar ocupado com alguma coisa, toda a gente diz que é importante vocês estarem ocupados a fazer coisas que vos façam bem.
Pai, eu acho que descansar me fazia bem.
Mas ires para a praia logo de manhã cedo com o colégio é muito bom, vais ter muito mais praia do que nós.
Mas chega-me ir à praia com vocês, não quero ir à praia com o colégio. Fui todas as manhãs, durante todo o ano, para o colégio.
Sim, mas não vais só para a praia, disseram-me que durante a tarde vão ter muitas coisas para fazer, muito divertidas e que são boas para se sentirem bem. Vão pintar, escrever, fazer visitas, praticar desporto, estarão lá os teus amigos. Aposto que vai ser fixe e no fim vais gostar. És sempre assim, começas a refilar com tudo mas depois vês que é bom.
Pai, por acaso já alguém te explicou o que significa a palavra férias?

terça-feira, 13 de julho de 2010

NÃO SOMOS UM PAÍS DE DOUTORES

É cíclico. Em cada época de candidaturas ao ensino superior lá aparece o discurso suicida dos licenciados desempregados. O CM titula em primeira página "54 600 doutores sofrem no desemprego". Sabemos que, de facto, estes números são preocupantes e reais mas acontece que, primeiro, eles não estão no desemprego por serem licenciados, estão no desemprego porque temos um mercado pouco desenvolvido e ainda insuficientemente exigente de mão de obra qualificada e estão no desemprego porque, por desresponsabilização da tutela, a oferta de formação do ensino superior é completamente enviesada distorcendo o equilíbrio entre a oferta e a procura como ainda ontem aqui afirmei. Muitas empresas, sobretudo as de menor dimensão, provavelmente devido ao baixo nível de qualificação dos empresários (um dos mais baixos da UE), parecem também mais avessas à contratação de mão de obra qualificada.
Vejamos alguns dados que nos parecem relevantes.
Um trabalhador licenciado ganha em média mais 80% que alguém com o ensino secundário. Um indivíduo com a escolaridade básica recebe em média menos 57% que alguém com o Ensino Secundário. Apenas 7.5% de pessoas com o 9º ano recebem duas vezes mais que a média nacional enquanto licenciados a receber duas vezes mais que a média são quase 60%. Os filhos de pais licenciados têm 3,2 vezes mais probabilidades de obter uma licenciatura. Entre os 25 e os 34 anos, 19% dos jovens tem uma licenciatura enquanto na OCDE a média é 32%. Em Portugal, o número de licenciados é metade da média da União Europeia. Na franja entre os 35 e 44 anos a percentagem ainda baixa para 13%. Um indivíduo com apenas o básico corre um risco de pobreza 20 vezes superior ao de um indivíduo com um curso superior.
Deste quadro relva a absoluta imprudência de passar a mensagem de que a formação é irrelevante, o desemprego é o destino.
A qualificação profissional, de nível superior ou não, é essencial como também é essencial a racionalidade e regulação da oferta do ensino superior.
Deixem definitivamente de lado a ideia de que somos um país de doutores, é um tiro no pé.

THE DARK SIDE OF THE SCHOOL

O final de mais um ano escolar justifica umas notas sobre a educação, a escola, que por cá vamos vivendo.
Um primeiro sublinhado para a continuidade do discurso partidarizado sobre a escola. Do meu ponto de vista seria absolutamente necessário um discurso político em matéria educativa que fosse sério, coerente, com rumo e metas definidas a prazo. Seria desejável que as políticas educativas enquadrem a organização e avaliação do sistema, escolas, professores e alunos numa perspectiva sólida, cientificamente competente e consensualmente estabelecida.
Ao contrário, os discursos sobre a educação decorrem, na sua maioria, das agendas de interesses partidários ou corporativos inibindo qualquer discussão séria sobre as inúmeras questões que se colocam. As decisões entretanto tomadas são reactivas, desenhadas de forma apressada e parecendo completamente à deriva, sem um fio condutor, feitas de intenções de avanço, de decisões de recuo e de medidas por vezes insustentáveis e de aplicação cega.
O clima nas escolas continua crispado, a conflitualidade de interesses, que é óbvia, que é natural e que pode ser factor de mudança pela busca de entendimentos, emerge mais como bloqueio do que como factor de mudança.
Os resultados divulgados, sobretudo, os que se prendem com os resultados dos alunos, estão permanentemente sob desconfiança face às habilidades e pressão para a construção de estatísticas educativas positivas que podem não corresponder a melhoria de qualidade.
No entanto, em termos de balanço, apesar deste "dark side of the school" vale sempre a pena, mas mesmo sempre, não esquecer que a maioria dos alunos trabalhou bem, com resultados positivos entre a excelência e o satisfatório, que a maioria dos professores procuraram empenhadamente e de forma competente promover o sucesso dos seus alunos, que a maioria das escolas, apesar dos problemas próprios a estas estruturas, funcionou de forma a que o trabalho de alunos e professores corresse o melhor possível, que a maioria dos pais, com maior ou menor dificuldade e com maior ou menor competência contribuiu também para o sucesso dos filhos, etc.
Acho que nos desabituamos de registar as coisas que, apesar das dificuldades, vão correndo bem, o que também é um sinal que nos deveria fazer reflectir.

segunda-feira, 12 de julho de 2010

ENSINO SUPERIOR, QUESTÃO DE VAGAS OU DE REDE?

O ensino superior em Portugal é, como muitíssimas outras áreas, vítima de equívocos e de decisões políticas nem sempre claras. Uma das grandes dificuldades que enfrenta prende-se com a demissão durante muito tempo de uma função reguladora da tutela que, sem ferir a autonomia universitária, deveria minimizar o completo enviesamento da oferta, pública e privada, que se verifica, Um país com a nossa dimensão são suporta tantos estabelecimentos de ensino superior, sobretudo, se atentarmos na qualidade. As regiões e autarquias reclamam ensino superior com a maior das ligeirezas.
Nesta matéria, a qualidade, espera-se que o processo em curso de Avaliação e Acreditação se revele um forte incentivo. Foi já divulgado pela Agência para a Avaliação e Acreditação do Ensino Superior que face aos pedidos de acreditação entregues na primeira fase, se pode afirmar que dos cerca de 4900 cursos actualmente existentes, 640 deixarão de existir antes de qualquer avaliação.
É um bom sinal, já aqui tenho dito e é conhecido, temos uma oferta de ensino superior, universitário, politécnico e subsistema privado, completamente distorcida, cuja responsabilidade é, como disse, da tutela que se demitiu durante décadas da sua função reguladora escudando-se na autonomia universitária, designadamente no sistema público.
Espera-se que o processo de avaliação e acreditação agora desencadeado, seja eficaz e não desenvolvido de uma forma cega. Existem cursos que apesar de alguma menor empregabilidade se inscrevem em áreas científicas de que não podemos prescindir com o fundamento exclusivo no mercado de emprego. Podemos dar como exemplo formações na área da filosofia ou nichos de investigação que são imprescindíveis num tecido universitário moderno. Será também importante que o processo permita desenvolver e incentive modelos de cooperação, universitário e politécnico, público e privado, que potencie sinergias, investimentos e massa crítica.
O enviesamento da oferta de que acima falava, alimenta a formação em áreas menos necessárias e não promove a formação em áreas carenciadas. Tal facto, conjugado com o baixo nível de desenvolvimento do país e com uma opinião publicada pouco cuidadosa na informação, leva a que se tenha instalado o equívoco dos licenciados a mais e destinados ao desemprego, quando continuamos a ser um dos países da UE com menos licenciados, já o disse aqui muitas vezes.
Neste quadro, a questão das vagas, mais ou menos e em que áreas, é apenas a consequência da rede de oferta e é nesta área que deve centrar-se o esforço de racionalidade, rigor e qualidade.

OS MIÚDOS E AS PENAS

Às vezes quando me ponho a pensar num texto para partilhar convosco surgem algumas ideias que acabo por abandonar de tão estranhas me parecerem. Hoje, acho que estava nesse caminho mas resolvi deixar seguir a ideia.
Entre as muitas palavras da língua portuguesa que se podem ligar aos miúdos e à sua vida creio que "pena" é uma delas. Reparem em alguns exemplos apenas pela ordem da lembrança.
Existem muitos miúdos cuja vida é uma pena bem pesada. Foram a ela condenados sem perceber porquê, nela vivem sem alternativa e muitos a cumprem por largos anos.
"Que pena, se ele quisesse era bom aluno" é uma expressão dirigida a muitos miúdos que decorrente de algum mal-estar não aproveitam talentos e capacidades que possuem. É curioso que muitos de nós ficamos satisfeitos com a ideia de que "eles não querem" e nunca colocamos a questão sobre "porque será que eles não querem".
Muitos miúdos têm uma presença tão leve, quase invisível que são autênticas penas, qualquer corrente ou agitação os faz abanar. Muitas vezes, de tão frágeis são vítimas despercebidas e silenciosas. Por outro lado e felizmente, existem muitos miúdos para quem a vida, ela própria, tem a leveza de uma pena, tudo corre com serenidade.
Também não é raro que a nossa boa consciência nos leve a ter pena do que acontece aos miúdos sem que esgotemos a capacidade de o evitar. Resta a resignação contida em "faz pena mas que se há-de fazer, é o destino".
Pois é, bem me parecia. É uma ideia mesmo estranha, foi pena ter continuado.

domingo, 11 de julho de 2010

A CADEIRA DE RODAS NÃO CABE

O Público de hoje trata um aspecto que algumas vezes também aqui tenho abordado, as condições de vida das pessoas com deficiência. No caso do Público, a questão é centrada na acessibilidade das pessoas que necessitam de usar cadeira de rodas.
Em alguns dos testemunhos recolhidos, apesar de reconhecerem que a legislação portuguesa é positiva e promotora dos seus direitos, é bem evidenciada a tremenda dificuldade que milhares de pessoas experimentam no dia a dia.
Existem ainda muitos serviços públicos e outro tipo de equipamentos de prestação de serviços com barreiras arquitectónicas intransponíveis, a que os cidadãos com deficiência só podem aceder com ajuda de terceiros e, mesmo assim, com dificuldade.
Os transportes públicos de diferente natureza também colocam enormes problemas na acessibilidade por parte de pessoas com mobilidade reduzida.
As normas de construção não são respeitadas, mantendo-se em edifícios novos a ausência de rampas ou a sua existência com desníveis superiores ao estabelecido, constituindo, assim, um risco sério de queda.
Para além deste quadro, suficientemente complicado, ainda há que contar com a prestimosa colaboração de muitos de nós que estacionamos o belo carrinho em cima dos passeios, complicando ou proibindo, naturalmente, a circulação de cadeiras de rodas. Os passeios, nem sempre com as medidas determinadas por lei, são, por vezes e quase na totalidade, ocupados com esplanadas que, claro, são só mais uma dificuldade para muita gente.
A vida de muitas pessoas com deficiência é uma constante e infindável prova de obstáculos, muitas vezes intransponíveis, que ampliam de forma inaceitável a limitação na mobilidade que a sua condição, só por si, pode implicar.
Termino com uma afirmação que recorrentemente subscrevo, os níveis de desenvolvimento das comunidades também se aferem pela forma como lidam com as minorias e as suas problemáticas.

sábado, 10 de julho de 2010

UM PAÍS ECUT - Enormes Custos para o Utilizador

A trapalhada e o alarido que se instalou nos últimos tempos sobe as famosas SCUT, não parece em vias de acalmar apesar de sucessivamente se anunciar um acordo entre PS e PSD. Num país em que as auto-estradas se pagam alguém entendeu por bem, política “oblige” que se construíssem algumas que não teriam custos. Passados alguns anos e como a factura tem de ser paga e o dinheiro não abunda, parece então necessário começar a pagar. Como seria de prever ninguém quer pagar o que, aliás, vai bem com a nossa cultura, o estado tem de garantir tudo, gratuitamente, em todas as dimensões da nossa vida.
De facto, de uma forma geral, tendemos a achar que nada deveríamos pagar e tudo deveríamos ter, sem pagar, é claro. Apesar de termos uma das mais elevadas cargas fiscais da União Europeia, também temos uma alta taxa de evasão fiscal. É frequente a tentativa individual, ou institucional (há empresas com gabinetes dedicados), de escapar ao pagamento e, basicamente, a grande fonte de rendimento do estado é o trabalhador por conta de outrem e o IVA.
Achamos que tudo o estado deve providenciar e nada deveríamos pagar ao estado ou seja, entendemos que deveríamos ser um País SCUT – sem custos para o utilizador.
A grande questão é o que faz o estado com o dinheiro que pagamos, como controlar o desperdício e o despesismo, como evitar o despudor ético do alimentar de clientelas partidárias em empregos e instituições criadas e sustentadas pelo que pagamos sem nenhuma espécie de utilidade ou justificação.
Estamos, assim, numa situação no mínimo curiosa, a maioria de nós paga, porque não consegue fugir, um insuportável custo por ser um utilizador do país e entende que o País deveria funcionar sem custos para o utilizador. Só me escapa o como, pois somos na verdade um país ECUT - Enormes Custos para o Utilizador.

O ROL DOS FIADOS

Quando era adolescente passava algum tempo numa mercearia e taberna que um dos meus tios possuía. Não era mundo que me atraísse particularmente, mas o meu primo, bom companheiro, "adiantava-me" um macito de "Português Suave" de vez em quando, uma grande ajuda para um vício novo e rico de um miúdo sem dinheiro para o sustentar e a querer armar-se em crescido.
Uma das minhas memórias, entre os copos dois e copos três ou um cortadinho, ainda não tinha chegado a moda da cerveja, é o rol de fiados. Tratava-se de um livro grosso comprido e com páginas estreitas onde se anotava os avios que a cada semana as pessoas levavam ou, também, as compras diárias que realizavam. Os meus tios anotavam a dívida, o fiado, de cada pessoa e ao fim do mês, ou da semana, as contas eram saldadas.
Para a grande maioria das pessoas da minha zona o dinheiro não abundava e a venda fiada era a forma de manterem a lida em funcionamento. É certo que por vezes lá surgiam uns atrasos ou mesmo uns calotes quase incobráveis mas, de uma forma geral, o princípio da confiança funcionava.
Com o desaparecimento do comércio de bairro, foi desaparecendo essa relação de confiança e, consequentemente, o rol dos fiados passa a curiosidade histórica. As grandes superfícies não têm cara, o Sr. Eugénio é uma funcionária de caixa anónima que todos os dias é diferente e o cliente é um cartão que, frequentemente, nem os bons dias dá.
Apesar dos riscos de dívida incobrável, a existência do rol dos fiados era um atestado de comunidade, de relações personalizadas e da confiança entre pessoas.
Fiquei contente quando há dias descobri que a D. Ana, vende pão e legumes aqui no meu bairro, ainda tem um rol de fiados. Ela ainda confia nas pessoas, mesmo nas que não chegam sempre com o dinheiro na mão e isso é bom.