sexta-feira, 30 de abril de 2010

O PORTUGAL DOS PEQUENINOS

Os tempos complicados que atravessamos solicitam, creio, que se construam entendimentos, que não eliminando diferenças naturais e necessárias, construam caminhos que possam contribuir para que a promoção do bem-estar comum prevaleça sobre os interesses individuais, corporativos, partidários ou de outra qualquer natureza minoritária.
Vem esta introdução a propósito das reacções que no seio dos respectivos partidos, PS e PSD os que mais provavelmente ocuparão o poder, tem vindo a emergir na sequência de algum entendimento entre Sócrates e Passos Coelho. Do meu ponto de vista e à luz do chamado bloco central de interesses, creio que em questões de natureza macroeconómica as diferenças não são tão substantivas assim, pelo que alguma convergência não surpreende. Por outro lado, também em termos pessoais estaremos em presença de estilos que permitem supor alguma proximidade e também por aí alguma aproximação não me surpreenda.
O que verdadeiramente acho extraordinário é a recusa de algumas vozes do dono preocupadas com os eventuais entendimentos. São vozes que se alimentam do mal-estar geral para capitalizarem, acham, dividendos. São os que quando se referem aos graves indicadores de problemas do país, têm que fazer um esforço para não se mostrarem contentes, porque isso lhes permite dizer mal, ou dizer bem, de forma acrítica, canina e sem um mínimo de sobressalto com o bem comum, o seu mundo é o que imaginam ser os interesses do seu partido.
Estou à vontade, porque me expresso amiúde contra a partidocracia instalada e sou um abstencionista militante. Mas enquanto não conseguimos que a organização cívica e política seja, de facto, alargada ao universo fora dos aparelhos partidários, o poder é exercido pelos partidos, tal como eles estão. E nesta fase que atravessamos é fundamental não perder de vista, entre outros aspectos, um risco sério de depressão económica e financeira, mais de 10% de desempregados e cerca de dois milhões de cidadãos em risco de pobreza.
E esta gente pequenina preocupada com o entendimento, apesar de pouco sólido e extenso, entre os que podem chegar a primeiro-ministro.

OS ENTENDIMENTOS

Alguns alunos entendem que os professores não sabem ensinar. Alguns professores entendem que os alunos não sabem aprender. Alguns pais entendem que os professores não são bons professores. Alguns professores entendem que os pais não sabem educar. Alguns alunos entendem que o que estão a aprender não tem sentido. Alguns professores entendem que os alunos são desmotivados. Alguns professores entendem que os alunos não são capazes de cumprir regras. Alguns alunos entendem que os professores não têm autoridade. Alguns professores entendem que os pais não sabem impor regras. Alguns pais também entendem que os professores não têm autoridade.
Alguns professores entendem que os pais são negligentes com os filhos. Alguns pais entendem que os professores não se preocupam com os alunos. Alguns alunos entendem que os professores não gostam de si. Alguns pais entendem que os professores não gostam dos seus alunos. Alguns professores entendem que os alunos não sabem nada. Alguns alunos entendem que os professores não ensinam nada. Alguns pais também entendem que o professores não ensinam nada.
Alguns pais entendem que os filhos dos outros pais prejudicam o seus filhos.
Também muita gente entende que existem muitas coisas que ninguém entende.
Eu entendo que se toda esta gente se entendesse conversando, os entendimentos poderiam ser outros.

quinta-feira, 29 de abril de 2010

POR ONDE É O CAMINHO?

Gostava de ouvir as eventuais respostas que as elites políticas, no governo ou na oposição, e as elites económicas dariam a uma criança que lhes chegasse à beira e perguntasse, “Senhor, pode dizer-me por favor, por onde é o caminho para o futuro?”.
Imagino que alguns ficariam atarantados com a pergunta e outros venderiam ilusões. É o que estamos a assistir, não parece ter havido capacidade para aprender com a crise que se instalou ligada a uma deriva especulativa que arrasou economias, a recuperação faz-se à custa do esforço dos cidadãos e mal as coisas parecem melhorar um pouco, logo emerge a tentação especulativa, ao que parece, a grande base de actuação das agências de rating que, através das suas decisões, manipulam o deus mercado e retomam os velhos pecados.
É certo, que no imediato temos graves problemas económicos e uma conjuntura gravíssima a exigir intervenções pesadas.
No entanto, sem que queira usar de um saber que não possuo, a questão essencial tem mais a ver com os modelos de desenvolvimento e os sistemas éticos e de valores do que com medidas económicas imediatas que sendo necessárias não resolvem as grandes questões.
Repensar os modelos económicos e de desenvolvimento, repensar os modelos éticos em política e em economia será, creio, o caminho para o futuro.
Para isso contamos contigo, ouviste miúdo?

A HISTÓRIA DO DIFERENTE

Era uma vez um miúdo chamado Diferente. Quando chegou a altura de ir para a escola os Iguais pensaram que talvez fosse boa ideia o Diferente ir para a escola onde andavam os Iguaizinhos, os filhos dos Iguais.
Ao entrar na escola o Diferente achou, ainda não tinha visto muitos, que os miúdos que lá andavam também eram diferentes, isto é, não eram como ele, mas não, os Iguais explicaram aos Iguaizinhos que apenas o Diferente era Diferente, eles eram Iguaizinhos.
Assim, o Diferente foi para uma sala e os Iguais não sabendo muito bem o que fazer com um Diferente acharam melhor não fazer muita coisa, deram-lhe um brinquedo para estar entretido e aos Iguaizinhos ensinavam coisas da escola. O Diferente sentia-se aborrecido porque também gostava de aprender coisas da escola.
Aos intervalos, os Iguaizinhos iam brincar para o recreio e como os Iguais lhes tinham dito que aquele colega era um Diferente, achavam que talvez ele não soubesse brincar e, por isso, não brincavam com ele. O Diferente sentia-se triste porque gostava de experimentar brincar daquela maneira que os Iguaizinhos brincavam mas ficava num canto a olhar.
Na altura do almoço e dos lanches, os Iguais, temendo que o Diferente pudesse não estar à vontade sentavam-no num canto do refeitório a ver os Iguaizinhos a comer e a conversar o que o deixava pouco satisfeito.
Às vezes, os Iguais levavam os Iguaizinhos a passeios e a visitas mas como pensavam que o Diferente poderia não gostar ou sentir-se bem, deixavam-no na escola com o seu brinquedo. O Diferente não percebia porque não o levavam com os Iguaizinhos naquelas saídas.
Assim eram os dias do Diferente, naquela escola onde os Iguais, de tão cuidadosos e preocupados com ele, não deixavam que nada lhe acontecesse, mesmo nada, nem a vida.

quarta-feira, 28 de abril de 2010

MODELAGEM SOCIAL

Numa avaliação por defeito aos casos participado de violência doméstica estima-se que cerca de metade serão testemunhados por crianças, cerca de 13000. Considerando que existem muitíssimas situações não reportadas, pode concluir-se que estas testemunhas, por vezes também vítimas, serão em número bem mais elevado.
Este quadro lembra o velho adágio "Filho és, pai serás", ou seja, num processo de modelagem social muitas crianças tenderão a replicar ao longo da sua vida, em adultos também, os comportamentos a que assistiram e que adquiriram aos seus olhos, infelizmente, um estatuto de normalidade.
Não é certamente por acaso que estudos recentes em Portugal evidenciaram números elevadíssimos de violência em casais de jovens namorados universitários, uma população já com níveis de qualificação significativos.
Neste contexto e com o objectivo de contrariar um espécie de fatalidade em círculo vicioso, os miúdos assistem à violência doméstica, replicam a violência, a sociedade é violenta, quando crescem são violentos em casa, e assim sucessivamente, importa que os processos educativos e de qualificação sublinhem a dimensão, a formação cívica e o quadro de valores.
Não é nada de novo, a afirmação desta necessidade. A questão é que o próprio discurso social e político sobre a escola e sobre os professores não me parece contribuir para que se possa encarar a escola com a confiança necessária a que possa cumprir o seu papel e contribuir para quebrar o círculo vicioso do processo de modelagem social envolvido. Acresce que a intervenção junto das famílias e a tentativa de contrariar dinâmicas disfuncionais, violência doméstica por exemplo, não dispõe dos meios e recursos suficientes.

A HISTÓRIA DO RAPAZ PARECIDO COM OS PÁSSAROS

Esta história tem um título estranho mas é mesmo assim. Era uma vez um Rapaz parecido com os pássaros.
Sempre que se falava neste Rapaz mais cedo ou mais tarde aparecia a comparação com os pássaros. Os professores achavam que ele estava quase sempre na Lua. Ora à Lua ó se pode ir voando como os pássaros. Também diziam que a atenção do Rapaz voava de umas coisas para as outras sem se fixar muito tempo em coisa alguma. Também assim fazem os pássaros. O Rapaz era muito falador e adorava contar histórias com um ar muito sério. As histórias tinham conteúdos mirabolantes e fins imprevisíveis. As pessoas que ouviam diziam que quando a imaginação do Rapaz se soltava, voava, voava sem parar, como os pássaros já se vê.
Pode parece estranho mas a sua forma de andar, era um Rapaz pequeno, dando assim como que saltos ligeirinhos fazia lembrar os pardais.
O Rapaz não era muito amigo de estar muito tempo num sítio fechado, precisava de sair e apanhar ar, a mãe dizia que não era pássaro de gaiola.
Não é, pois, de estranhar que quando a professora pediu para que os miúdos da turma escrevessem um texto sobre o que gostariam de ser quando crescessem, o Rapaz elaborou uma prosa onde descrevia tudo o que poderia fazer quando fosse o queria ser, um Voador.

terça-feira, 27 de abril de 2010

O DESPERDÍCIO NÃO RESPONSABILIZADO

Ainda sem conhecer a proposta de revisão do Estatuto do Aluno a discutir na Assembleia da República, umas notas sobre um dos aspectos cuja alteração está anunciada, as provas de recuperação realizadas devido a faltas dos alunos.
De entre algumas das disposições do Estatuto em vigor que justamente mereceram crítica, as provas de recuperação assumiram-se quase como um paradigma da acção política da anterior equipa do ME. Transmitiram um sinal público inaceitável, a irrelevância das faltas, ou seja, através de uma prova de recuperação, poder-se-ia proceder à limpeza das faltas. Promoveram ruído nas escolas porque devido a diferentes interpretações de um articulado confuso, emergiram práticas e entendimentos diferentes que não constituindo um problema em si mesmo, traduzem a deriva da acção. Criaram um conjunto de procedimentos e burocracias que dificultaram obviamente a acção dos professores com resultados que já na altura muita gente antecipava e denunciava como nulos e que a actual equipa vem reconhecer.
Ainda bem, pois, que desapareceram as provas de recuperação. Fica, no entanto, a questão de que consequências e ilações se devem retirar destes episódios. A arrogância incompetente que não permitia a discussão, a recusa de considerar outros ponto de vista e de entender que quando se faz mal o comportamento inteligente é corrigir, não é persistir, geraram desperdício não contabilizado mas de sérias consequências. A título de exemplo, podemos considerar o dano na atitude dos alunos e pais face à importância da assiduidade e o desperdício de tempo e de investimento dos professores e das escolas em procedimentos inúteis e errados mas onerosos em tempo e investimento. De qualquer forma nada disto servirá para responsabilizar quem decidiu e recusou alterar que, aliás, já foram devidamente premiados pelos serviços prestados.
E assim se vai cumprindo a política educativa em Portugal.

A HISTÓRIA DO VELHO PESCADOR

Lá naquela terra onde acontecem coisas havia um Velho Pescador que toda a gente considerava o melhor pescador que por lá tinha aparecido.
Não havia peixe que ela não conseguisse pescar só que o Velho Pescador tinha uma particularidade até um bocado estranha, pescava os peixes para falar com eles, passado algum tempo, voltava a colocá-los na água e ficava a vê-los desaparecer.
É claro que as pessoas não percebiam muito bem o Velho Pescador, primeiro porque raramente algum peixe lhe escapava e também porque, era mesmo esquisito, os peixes pareciam ficar tranquilos a ouvir o Pescador Velho o tempo que ele estivesse a falar para eles com um jeito manso.
O Velho Pescador quando lhe perguntavam como conseguia que os peixes se deixassem pescar e encantar por ele respondia que era uma questão de escolher bem o isco. Afirmava que é preciso estudar bem os peixes, cada peixe, e depois arranjar o isco que levaria cada um, mesmo os mais fugidios a morder e a ficar cativados a ouvir e, depois, ir embora tranquilos.
Por isso é que naquela escola não havia aluno que não gostasse daquele professor.

segunda-feira, 26 de abril de 2010

A DIGNIDADE DE UM EMPREGO

Como aqueles que mais habitualmente por aqui passam têm reparado, só muito raramente abordo algo que não tenha directamente a ver connosco, portugueses. Hoje não posso deixar de reflectir sobre uma realidade que nos está bem próxima o desemprego, mas a partir de uma situação relatada no DN. Uma jovem inglesa de 21 anos suicidou-se depois de dois anos de busca de emprego e de cerca de 200 recusas. Segundo bilhetes de despedida a familiares referiu, após nova recusa, não ser mais capaz de suportar a humilhação de não merecer uma oportunidade de emprego.
São conhecidos casos de suicídio de pessoas, mais velhas, afectadas por desemprego e pelas devastadoras implicações que daí podem decorrer, mas esta situação em jovens é menos frequente embora o grupo dos que procuram o primeiro emprego sejam um grupo particularmente afectado pelas dificuldades.
Como sempre, pode alegar-se a dificuldade do estabelecimento de nexo causal, apesar das afirmações da jovem, e a sua eventual fragilidade psicológica. No entanto, muitas vezes aqui o tenho referido, encontrar e manter trabalho representa para a maioria das pessoas um pilar fundamental da sua dignidade e do sustento da sua integridade. Uma vez escrevi que alguém a quem roubam o emprego, roubam a dignidade.
Deste ponto de vista, por vezes, não basta um apoio económico que muitos, sobretudo os que procuram o primeiro emprego, nem sequer têm.
No âmbito das políticas sociais, que muitos contestam, as pessoas precisam mais do alguns euros, poucos ou muitos, precisam de se sentir pessoas, de se sentir íntegras, de não ver a sua dignidade ameaçada.
Não nos podemos esquecer disto sem pagar um preço elevado. Pode acontecer à nossa beira.

AS TURMAS DE ANTIGAMENTE

Estava a recordar um filme muito interessante que passou há relativamente pouco tempo nos cinemas, "A Turma" de Laurent Cantet, e comecei a pensar nos miúdos das nossas escolas e nas turmas em que os arrumam.
Até praticamente até ao fim do secundário frequentei escolas que tinham como critério fundamental de organização das turmas o comportamento e o rendimento escolar dos alunos. Assim, apesar de ir passando de ano, o meu comportamento era, por assim dizer, quase mau, pelo que sempre fui integrado em turmas de repetentes e indisciplinados. Devo dizer que eu achava que eram as melhores turmas da escola embora, vá lá saber-se porquê, os professores não tivessem a mesma opinião, sobretudo os que com elas tinham que trabalhar, os mais novos e inexperientes.
Nós, que tínhamos tal privilégio, ficávamos contentes. Quem é que poderia gostar de estar num grupo de colegas que passavam o tempo a estudar, a maior parte não sabia dar um pontapé numa bola, nunca alinhavam em faltas nem em partidas nenhumas? Ninguém. Nas minhas turmas estava sempre o pessoal mais porreiro, gostávamos das mesmas coisas, gozávamos na escola e assim.
Havia um problema com os meu pais. Como todos os pais, os de ontem e os de hoje, eles também achavam que eu era bom (quase sempre), o problema era as companhias e por isso queriam que eu me afastasse dos meus colegas de turma que eram más companhias. Ora isto era impossível, primeiro porque eu achava que eram boas companhias e, segundo, porque a escola cumprindo os nossos desejos nos juntava o que nós agradecíamos.
Como dizem os velhos, hoje em dia já não se fazem turmas como antigamente, as más companhias todas juntas. Tudo se perde.

domingo, 25 de abril de 2010

OS TRÊS D(S)

Os grandes objectivos do processo desencadeado a 25 de Abril de 1974 eram muitas vezes referidos como os três Ds, Desenvolvimento, Descolonização e Democracia, a ordem não me recordo. Apesar de estarmos a viver esta história e, portanto, da falta de distância que sustente avaliação mais lúcida, creio que podemos afirmar que, basicamente, se cumpriram.
No que respeita ao Desenvolvimento, o País actual, em termos sociais, saúde, por exemplo, culturais, estilo e qualidade de vida, etc., tem pouco a ver com o Portugal de antes de 74. Este desenvolvimento foi global, para o melhor e para o pior. Em algumas áreas atingimos mesmo níveis impressionantes, temos uma densidade de rotundas, telemóveis, auto-estradas e betão à beira-mar que nos colocam na vanguarda. Também cresceram e se desenvolveram, por exemplo, a ineficácia da nossa administração pública, um sistema de justiça moroso e injusto, o nível de corrupção, etc. No entanto e apesar de tudo, o saldo pode considerar-se positivo.
Quanto à Descolonização a história parece afirmar que, nos termos em que a situação estava, dificilmente, poderia ter sido de outra forma. Apenas permanece por definir, de acordo com o inimputável Alberto João, a situação da colónia da Madeira.
Finalmente a Democracia. Começámos por aprender a viver numa Democracia, poder votar em eleições livres e gozar da liberdade expressão, foi demais. No entanto, a democracia política e a participação cívica foram-se confinando a uma partidocracia, a participação política dos cidadãos fora da esfera dos partidos é, quase, inexistente e também vamos assistindo a alguns “enviesamentos” do que podemos chamar de vivência democrática.
Apesar destes aspectos menos interessantes, podemos, creio, afirmar, como referi em cima, que, basicamente, aqueles três Ds de 74 se cumpriram. Temos agora como enormes desafios outros três Ds, Divergência, Depressão e Desconfiança. A Divergência do nosso trajecto face aos nossos parceiros europeus que nos mantém, apesar do nosso progresso, ainda longe dos patamares atingidos pela maioria dos países. A Depressão económica que influencia o maior problema que actualmente enfrentamos, o desemprego e a Desconfiança que sentimos pela generalidade da classe política e pelas capacidades e recursos que temos, o que compromete seriamente a confiança no futuro, continuamos tristonhos e meio resignados.
Veremos o balanço daqui a uns anos.

sábado, 24 de abril de 2010

ESTÁ NO COMPUTADOR, ESTOU DESCANSADO

A propósito do episódio de sequestro de um adolescente de Vizela, recuperado quando já estaria em curso uma operação de venda para trabalho escravo em Espanha no valor de 4000 €, o Público alerta para os riscos presentes na utilização da Net.
Também a este propósito algumas notas sobre esta questão que me parece, de facto, solicitar atenção.
As mudanças verificadas nos estilos de vida das famílias sustentam algumas situações que importa considerar. Segundo alguns estudos, perto de 50% das criança até aos 15 anos terão computador ou televisor no quarto, além do telemóvel.
Acontece que durante o período de sono e sem regulação familiar muitas crianças e adolescentes estarão diante de um ecrã, pc, tv ou telemóvel. Com é óbvio, este comportamento não pode deixar de implicar consequências nos comportamentos durante o dia, sonolência e distracção, ansiedade e, naturalmente, o risco de falta de rendimento escolar num quadro geral de pior qualidade de vida. Esta uma das questões presentes e a que se torna necessário dar atenção.
Outro grande eixo de risco direcciona-se para aspectos como tentativas de aliciamento e obtenção de dados para os mais diversos fins, alguns de uma enorme gravidade potencial e que são referidos no trabalho jornalístico.
Estas matérias, a presença das novas tecnologias na vida dos mais novos, são problemas novos para muitos pais, eles próprios com níveis baixos de alfabetização informática. Considerando as implicações e nos sérios riscos presentes na vida diária, importa que se reflicta sobre a atenção e ajuda, em informação e na forma de lidar com os riscos, destinada aos pais de forma a que a utilização imprescindível seja regulada e protectora da qualidade de vida das crianças e adolescentes.

UMA HISTÓRIA DE VULCÕES

Há uns dias, numa a escola lá daquela terra onde acontecem coisas e onde vive o Professor Velho, aquele que está na biblioteca e fala com os livros, um dos gaiatos, o Marco, desencadeou uma cena complicada de gerir, ficou sem razão aparente e de forma súbita muito reactivo, com uma atitude muito agressiva e uma linguagem igualmente agressiva. Os colegas, um pouco perplexos, afastaram-se, um funcionário tentou intervir mas não foi bem recebido e apenas o aproximar de mansinho e a fala cativante da Professora Joana pareceram começar a tranquilizar o Marco.
O episódio foi, naturalmente, objecto de conversa, até porque nos últimos tempos já tinham acontecido outras situações da mesma natureza que alimentam o que a escola chama de onda de indisciplina.
Num grupo em que, de volta de um chá na sala de professores, se comentava o assunto o Professor Velho opinou daquela forma tranquila que talvez se tratasse de um problema de vulcões, poderia não ser um problema de indisciplina. Face à estranheza que a afirmação provocou o Velho começou a falar de como se tem vindo a instalar em muitos miúdos um mal-estar que, quase sem darmos por isso, os vai preenchendo por dentro. Uns resistem e com alguma ajuda que lhes possamos dar, quando estamos atentos, vão acomodando defesas e ajudas e reorganizam-se, sobrevivendo. Outros, mais vulneráveis e a que não conseguimos estar atentos, acabam roídos por esse mal-estar entranhado e pode acontecer que se afundem, impludam, se deprimam e desistam de si e de lutar pela vida ou, foi o caso do Marco, que a pressão do mal-estar dentro deles se torne tão grande e insustentável que provoque a explosão, entrem em erupção descontrolada que liberte aquela mágoa que lhes rói o sentir. Depois dessas erupções podem entrar em período de acalmia até à próxima explosão.
É agora que teremos de ir à procura do Marco.

sexta-feira, 23 de abril de 2010

COPY, PASTE

Há algum tempo a imprensa fez-se eco de uma preocupação de muita gente ligada ao ensino básico, secundário e superior com a relativa normalidade com que os alunos realizavam trabalhos a partir do dispositivo "copy, paste" ou seja, plágio.
Na altura opinei, sublinhando a preocupação, mas considerando que uma certa cultura de normalização e os modelos de ensino muitas vezes instalados sustentavam a criação de atitude de facilidade e de que não é grave, "é normal" copiar.
A questão é que, é sabido, os problemas do "copy, paste" não são exclusivos dos alunos como a peça do Público evidencia. Os casos de plágio não são tão raros na comunidade académica como se imagina e o discurso de "virgem ofendida" que por vezes se ouve não passa de uma retórica que procura mascarar o óbvio, a realização de plágios.
A pressão e a competição desenfreada instalada no mundo académico ajudam a definir condições favoráveis a que numa "fraqueza da carne" se cozinhem uns produtos, teses ou artigos, por exemplo, que "safem" o autor ou autores mesmo que a ética fique razoavelmente afastada deste cenário.
Como sempre, é importante evitar o discurso da generalização abusiva e obviamente errada, mas é bom ter consciência que também o mundo da elite científica é permeável a algum despudor ético que por aí anda.
Sinais dos tempos.

A HISTÓRIA DO FERNANDO, UM HERÓI

Da nossa vida fazem parte alguns heróis, uns de ficção que aparecem junto de nós transportados nos livros ou nos filmes, que passam a ser companhias próximas e parceiros de aventuras, outros inventados pela fantasia que se vai modificando à medida que se cresce e outros, reais, porque em algum momento realizaram acções ou comportamentos que os tornaram heróis aos nossos olhos, às vezes, durante pouco tempo, outras vezes permanecendo com essa aura sempre que nos lembramos deles.
Um dos meus heróis reais de miúdo foi o meu amigo Fernando, colega de primária. Já vos falei dele, tinha os melhores pés para o futebol que alguma vez vi naquelas idades, ajudava-nos a ganhar quase sempre os jogos com o pessoal de fora. Mas o que o tornou um herói foi a sua atitude revolucionária, a primeira a que assisti, para com o terror da nossa escola, a Régua, é verdade, a Régua.
O que nós sofremos com aquela Régua, apanhávamos pelos erros, pelas contas mal feitas, por atraso ou distracção, por comportamento. Podia dizer-se que levávamos reguadas por dois motivos fundamentais, por tudo e por nada. Às vezes, num requinte de fino recorte, o professor dizia a um de nós para bater no colega e se achasse que nós batíamos devagar, dava ele nos dois. Tínhamos um indescritível amor à Régua.
Um dia, o Fernando, um dos mais frequentes e bons utilizadores dos serviços da Régua trouxe uma ideia, roubar a Régua. Todos nos entusiasmámos com a lembrança e com a adrenalina da acção e a coisa foi combinada, muito bem combinada, profissional mesmo. Um grupo pequeno, à saída, pediu ao professor para ir ver algo nas traseiras da escola enquanto o Fernando, o herói, ficou na sala e roubou a malvada Régua. Nesse dia à tarde, depois da escola, ainda não tinham inventado o dia inteiro de intoxicação escolar e ainda se brincava na rua, juntámo-nos num espaço discreto e imaginem, queimámos a Régua. O Fernando ficou um herói, foi ele que acendeu o fósforo da fogueirinha em que a Régua se transformou, merecia.
No outro dia, para não variar, o professor procurou a Régua na gaveta da secretária e, claro, não a encontrou. Vociferou, perguntou se sabíamos quem a tinha tirado, o grupo calou-se, todo, ficámos sem intervalo mas ganhámos um herói, o Fernando.
Dias depois, apareceu uma Régua nova na sala e …

quinta-feira, 22 de abril de 2010

SMS - Sinto-me Muito Só, e tu?

Aparentemente e reafirmadamente vivemos na era da comunicação, nunca os meios e níveis de comunicação estiveram tão em alta. Uma das ferramentas mais eficazes de comunicação é, sem surpresa, os telemóveis. Segundo um estudo a divulgar brevemente e realizado pela Universidade do Porto, 93.3% das crianças e adolescentes inquiridas entre 6º ano e o 10º têm telemóvel. Os mais novos enviam cerca de 84 sms por dia e os mais velhos atingem as 235. O mesmo estudo diz ainda que 78% dos contactos entre pré-adolescentes são operados através de sms. Como se vê estamos mesmo em comunicação intensiva.
Os estudos realizados com adultos evidenciam também este elevado nível de comunicação por sms.
Apesar deste aparato comunicacional e sem querer minimizar os lados positivos deste fenómeno creio, no entanto, que muitas crianças e adolescentes mascaram a solidão em que vivem e que, alguns, sentem, através da troca de centenas de sms que, em algumas circunstâncias, são mais SOS que SMS, ou seja, no fundo dirão Sinto-me Muito Só e tu?
Como refere o Professor Mário Cordeiro na peça do I sobre esta questão, torna-se fundamental a atenção dos adultos para que o mundo da comunicação sms (ou as redes sociais da net) não substitua o mundo da comunicação real, entre pais e filhos, por exemplo.

FOI O INVERNO

Provavelmente será o último texto que aqui coloco a propósito da tragédia que envolveu o Leandro. Como disse na altura, a conclusão do inquérito da Inspecção-geral da Educação no sentido de não ser possível estabelecer nexos de causalidade entre os factos divulgados e a morte do miúdo era mais do que provável. O inquérito também levantava a possibilidade da vigilância da escola, realizada por pessoas sob tutela da autarquia, poder não ter sido eficaz. O inquérito, há sempre mais um inquérito, conclui que eventuais falhas do porteiro têm atenuantes, há sempre atenuantes, pelo que eu creio que ainda se torna necessário continuar a investigar através de mais alguns inquéritos.
Faz parte do nosso funcionamento a necessidade de encontrar responsáveis, ou melhor, culpados, que permitam sossegar as nossas consciências e permitir que tudo continue na mesma.
Estranho, desculpem o humor negro, que ainda ninguém tenha referido a o papel que um Inverno especialmente chuvoso que aumentou exponencialmente o caudal do Tua teve na tragédia e que este inverno anormal se deverá às alterações climáticas decorrentes do aquecimento global de origem humana, este sim, o verdadeiro fenómeno responsável pela trágica morte do Leandro, sem água não há afogamento.
Voltando a um registo mais sério, o que me inquieta é que tragédias desta natureza pareçam nem sequer servir para questionar o que proporcionamos diariamente aos miúdos, a atenção que damos, ou não, aos seus sinais, a que sinais devemos estar atentos que nos ajudam a antecipar situações de mal-estar que possam ter desenvolvimentos negativos, que dispositivos de apoio e modelos de organização e funcionamento das escolas serão mais necessários e eficazes, etc., etc.
Tudo o resto estava bem, a responsabilidade será do porteiro, que, no entanto, tem atenuantes. Eu também acho que tem atenuantes, é apenas o porteiro e o que menos responsabilidades tem em tudo o que envolve o bem-estar dos miúdos.

PAI E FILHO, OUTRO DIÁLOGO IMPROVÁEL

Olá pai, ainda bem que te vejo, passas pouco tempo em casa, chegas tarde, queria falar contigo.
Olá Miguel, não estou com muito tempo mas diz lá.
É o costume, sempre que quero falar contigo não tens muito tempo.
Ainda agora estamos a começar já me estás a dar uma seca.
Não te estou a dar seca nenhuma, sabes que é verdade e que me preocupo contigo.
Vá Miguel, despacha-te, já te disse que tenho um bocado de pressa.
Pai, que tal está a correr o teu trabalho.
Uma seca, tenho que fazer uma data de coisas de que não gosto, tenho um tipo a mandar que é um incompetente e me chateia o tempo todo e ainda por cima ganho pouco.
Pois é pai, mas tens de te esforçar, nem sempre gostamos do que fazemos mas é importante que as coisas sejam bem feitas. Tens a certeza que quando tu achas que o teu chefe te chateia ele não terá alguma razão porque estás fazer as coisas menos bem feitas porque não gostas de as fazer?
Que ideia, o tipo é mesmo incompetente e burro.
Pai já te tenho dito que não me parece bem que fales assim das pessoas. E com os teus colegas vai tudo bem?
Mais ou menos, lá na firma há uns gajos porreiros com quem me dou bem mas há um tipo ou dois, sempre armados em santinhos, a dar graxa ao chefe e dizer coisas do resto do pessoal. Um dia deste ia andando à pancada com um deles.
Pai, quantas vezes preciso de te dizer que os assuntos não se resolvem à pancada. Não somos obrigados a gostar de toda a gente nem a estar sempre de acordo mas não é necessário resolver as coisas dessa forma.
Miguel, mas sabes que um tipo às vezes passa-se.
Tens de ser capaz de te controlar pai. Bom, vai lá à tua vida e porta-te como deve ser.
Mas porquê esta conversa toda?
Vou ter uma reunião de filhos e preciso de saber como andam as coisas contigo.

quarta-feira, 21 de abril de 2010

A MENINA DE CINCO OLHOS

É cíclico e não causa estranheza. Sempre que algum fenómeno começa causar preocupações e grandes dificuldades emergem os discursos duros que se opõem às "modernices" que estragam as pessoas. O I, a propósito de nos Estados Unidos, mais concretamente no Texas, se ter retomado o uso da régua para lidar com os comportamentos dos miúdos, relança a discussão a pensar na nossa realidade ouvindo alguns pais e professores que rejeitam a solução, felizmente, digo eu. Vai ser interessante conferir os comentários on-line, pois creio que aparecerão certamente apoiantes desta prática.
Lembro-me quando era miúdo, também me tocou, mais do que a dor física da reguada, me sentir tremendamente humilhado por estender a mão a alguém, um adulto e professor, que friamente me batia tantas vezes quantos os erros no ditado ou em consequência de ter falado com meu colega quando era suposto estar calado. Lembro-me ainda do especial requinte de um professor que em vez de ser ele a bater, encarregava um de nós de o fazer levando do professor se batesse devagar no colega.
Muitas pessoas assustadas com as grandes dificuldades que sentimos com os comportamentos das crianças sentir-se-ão tentadas pelo retorno à menina de cinco olhos. Os mesmos medos que fazem alguns suspirar pela pena de morte que os Estados Unidos não abandonaram mantendo, é bom não esquecer, indicadores de violência e delinquência superiores aos nossos.
Finalmente, antecipando alguns comentários, sublinhar que este entendimento não tem nada a ver com laxismo ou com a ausência de regras, limites e punições, são fundamentais e imprescindíveis na formação dos miúdos Tem exclusivamente a ver com a natureza dos processos utilizados e a sua eficácia e com o respeito pelos direitos dos miúdos.

A HISTÓRIA DA CLAQUE

Era uma vez um miúdo chamado Pequeno. Tinha uns 13 anos e era, por assim dizer, um miúdo com medos, com muitos medos. Não gostava de mostrar os seus medos, nunca gostamos de o fazer. O Pequeno sentia-se muitas vezes mais pequeno que os outros, para mascarar o medo gostava de passar por maior. Nessas alturas, quem não o conhecia pensava que ele já não era o Pequeno. Mas quase sempre o Pequeno tinha um ar assustado, mesmo quando fingia não ter medos e tinha muitas vezes pesadelos onde lhe apareciam os medos.
O Pequeno tinha uma paixão, o seu clube de futebol, era adepto do Clube Grande. Tinha tudo o que os adeptos têm e que revela como gostam do clube. O Pequeno ia muitas vezes ao futebol com o pai e o irmão ver o Clube Grande. Mas o que ele queria mesmo era um dia ir ver o jogo lá no meio da claque. O problema é que o Pequeno tinha algum medo.
Um dia, encheu-se de coragem e pediu ao pai se em vez de o levar para o pé dele, se podia comprar um bilhete para o sítio da claque. Depois de uma série de avisos o pai acedeu. No jogo seguinte, o Pequeno pegou em todo o equipamento que tinha que achava que se devia levar para a claque e, a medo, misturou-se com aquele pessoal.
Ao princípio estava, claro, com algum medo, mas quando começou o jogo e a claque ferveu, o Pequeno sentiu-se grande, de verdade. Gritava como ninguém, cantava de tal maneira que achava que a sua voz e os seus incentivos ao clube se ouviam no estádio inteiro. No meio da claque não se sentia um Pequeno.
Naquela noite, pela primeira vez em muito tempo, os medos não lhe apareceram em pesadelos. Sonhou que era o chefe da claque do Clube Grande e que toda a gente da claque o seguia.

terça-feira, 20 de abril de 2010

A GUERRA E OS EFEITOS COLATERAIS

Não, não vou falar sobre nenhum dos vários conflitos armados que estão em desenvolvimento no planeta. Estou a referir-me à proclamação de Mário Nogueira em nome da Fenprof, “Se o Governo quer guerra, é guerra que vai ter”, que me deixou entre o perplexo e o preocupado.
Ao longo dos últimos anos, muitas vezes aqui tenho deixado expressa uma opinião clara e negativa sobre as incompetentes e incompreensíveis medidas de política educativa que o ME, sobretudo através da equipa de Maria de Lurdes Rodrigues, subscreveu de que foram expoentes alguns dos conteúdos do Estatuto da carreira docente e o modelo de avaliação. Também tenho referido o entendimento de que, apesar das razões que assistem aos professores, alguns dos discursos dos seus representantes contribuem seriamente para que o cidadão comum não tenha uma ideia clara da bondade das suas reclamações e seja permeável à manipulação política facilitando, assim, o desenvolvimento de uma imagem social desfavorável à classe de efeitos devastadores e com implicações sérias no trabalho dos professores.
Neste mais recente episódio, de novo, este cenário é montado. O Ministério acabou por entender que o modelo de avaliação que defendeu não tem sentido e deve ser mudado, mas entretanto o que foi feito com esse mau modelo tem consequências para os professores. No mínimo, é discutível este entendimento. No entanto, do meu ponto de vista, é também discutível, no mínimo, a proclamação de guerra de Mário Nogueira. O que a educação menos precisa é de guerra e de discursos que, apesar da bondade de algumas das razões, também radicam na luta político-partidária em que a educação se transformou. Pensarão o Ministério e o Secretário-geral da Fenprof no risco, óbvio, nos efeitos colaterais da “guerra que vão ter” e sobrarão, como sempre, para cima dos miúdos e das famílias?
Pode não ser muito popular este discurso mas tenho sempre alguma dificuldade na utilização do conceito de guerra justa e, tal como me expressei contra os discursos incendiários e eticamente delinquentes de figuras como o indescritível Valter Lemos, também me preocupa a guerra proclamada por Mário Nogueira. As palavras não passam de palavras mas têm sentido, o que lhes damos.

O QUE EU GOSTO NA MINHA ESCOLA, OUTRO DIÁLOGO IMPROVÁVEL

Olá João, como vai a escola?
Na mesma, uma seca.
Uma seca?! Parece-me que não gostas assim muito da escola.
Não tio, não gosto assim muito da escola, quer dizer, há coisas que gosto e coisas que não gosto.
É normal, há sempre e em todo o lado coisas de que gostamos e coisas de que não gostamos. Mas temos que ser positivos. De que gostas mais na escola?
Dos intervalos, é quando estou com os meus amigos e com a Sara.
Bom, mas deve haver outras alturas em que gostas da escola?
Sim, ao fim de semana e nas férias.
E das disciplinas que tens, de quais gostas mais?
De Educação Física porque o setor deixa-nos sempre jogar futebol e também gosto da Área de Projecto.
A Área de Projecto é muito interessante, sim senhor, e porque gostas?
Porque não fazemos nada, posso estar a jogar com o telemóvel.
E não tens professores de quem gostes?
Tenho, a gente gosta da setora de Ciências e da setora de Francês.
É sempre assim, existem alguns professores de quem gostamos mais, é porque elas explicam bem a matéria?
Não tio, é porque a setora de Ciências falta muito e a setora de Francês que a vai substituir deixa-nos fazer o que quisermos desde que não haja muito barulho.
Acho que assim não vais muito entusiasmado para a escola todos os dias.
Vou tio, com o mesmo entusiasmo com que a maior parte dos adultos vai trabalhar todos os dias.

segunda-feira, 19 de abril de 2010

QUALIFICAÇÃO PROFISSIONAL, DE NOVO

Um trabalho hoje divulgado no JN aborda uma questão que recorrentemente aqui tenho referido, a importância da qualificação das pessoas e a relação fortíssima entre a baixa qualificação e o risco de pobreza. Um indivíduo com apenas o básico corre um risco de pobreza 20 vezes superior ao de um indivíduo com um curso superior.
Esta questão é, por vezes, objecto de alguns discursos que creio de reflectir pois geram equívocos.
Um primeiro aspecto rende-se com a ideia afirmada e reafirmada de que quando se fala de formação e escola se refere um curso superior e lá vem a conhecida argumentação de que temos muitos jovens licenciados no desemprego. Acontece que, primeiro, eles não estão no desemprego por serem licenciados, estão no desemprego porque temos um mercado pouco desenvolvido e ainda insuficientemente exigente de mão de obra qualificada e estão no desemprego porque, por desresponsabilização da tutela, a oferta de formação do ensino superior é completamente enviesada distorcendo o equilíbrio entre a oferta e a procura.
Em segundo lugar, a questão central não é a necessidade de formação escolar de nível superior, é a necessidade qualificação profissional. Esta formação profissional pode ser de nível mais longo e aprofundado, superior por exemplo, ou de natureza mais curta, de nível médio e orientada para uma entrada mais cedo no mercado de trabalho.
Repetindo, o ponto essencial é, pois, a qualificação e não o nível escolar dessa qualificação. Neste sentido é necessário que o sistema disponibilize oferta diferenciada para que os alunos possam enveredar por caminhos diferentes mas sempre com a formação como objectivo último.
Finalmente, importa não esquecer a qualidade da formação. O responsável referido na peça do JN, o comissário Luís Capucha, desde que lida com o Programa Novas Oportunidades tende a confundir qualificação com certificação o que, obviamente, compondo as estatísticas, não é boa ideia.

A VIDA NO CONDICIONAL

Todos nós vamos construindo a nossa narrativa conjugando-a em muitos tempos. Alguns de nós, demais, conjugam fundamentalmente o condicional, ou seja, vivem no condicional.
Se não estivesse só a minha vida seria mais bonita.
Se tivesse emprego a minha família teria uma vida melhor.
Se percebesse de onde me nasce esta tristeza seria mais feliz.
Se os meus pais tivessem mais tempo para mim não me sentiria tão só.
Se tivesse mais tempo para brincar teria mais amigos.
Se tivesse mais confiança não teria medo do futuro.
Se me respeitassem a dignidade a vida seria mais minha e mais tranquila.
Se as promessas não fossem sempre uns enganos eu acreditaria.
Se soubesse como seria a minha a vida não teria caminhado por esta estrada.
Se tudo assim não fosse, tudo seria melhor.

domingo, 18 de abril de 2010

O ENSINO OBRIGATÓRIO É GRATUITO

De acordo com o Artº 74º da Constituição o ensino é universal, obrigatório e gratuito. Esta disposição é um dos eixos fundadores do sistema educativo português assegurando que o direito à educação chegue a todos, a todos obriga e a todos é acessível devido à gratuitidade.
Em bom rigor é sabido que, na prática, o ensino é tendencialmente universal e obrigatório pois temos ainda taxas elevadas de abandono e muitos milhares de crianças que por diversas razões, problemas educativos específicos por exemplo, não vêem satisfeito o direito à educação e também é tendencialmente gratuito pois sabe-se o esforço económico que em cada ano é pedido às famílias com uma utilização excessiva de manuais, livros de fichas e outros materiais de apoio aos manuais, para além de um conjunto diversificado de "ferramentas" que enchem as mochilas dos miúdos.
Neste quadro, a redução das deduções fiscais das despesas com a educação pode, de acordo com a CONFAP, constituir mais um constrangimento à gratuitidade do ensino. Por outro lado, também não se estranha o discurso da Ministra desvalorizando estes riscos, é a política, claro, e também se entende a preocupação do ensino privado com a capacidade económica das famílias que têm os seus filhos neste subsistema.
Embora me pareça importante a questão do impacto das medidas do PEC, considero que para as famílias os gastos que já referi em múltiplos manuais, pouco reutilizáveis, cujo uso decorre de um ensino altamente manualizado, os gastos em variados materiais de apoio aos manuais que já tenho abordado e os gastos num enorme leque de material escolar, todos eles, por vezes, multiplicados por vários filhos, são bastante mais pesados que a redução das deduções fiscais. É este universo de encargos que verdadeiramente compromete a gratuitidade do ensino e dificulta seriamente a vida de muitos milhares de famílias.
Quanto à universalidade e obrigatoriedade, para além dos problemas económicos, colocam-se outras questões.

sábado, 17 de abril de 2010

NUVENS NEGRAS

Há alturas que tudo parece correr mal. O ambiente já andava suficientemente perturbado. A qualidade do clima da nossa vida comunitária parece ter batido no fundo e os seus mais significativos protagonistas, numa espécie de deriva suicidária, mostram-se decididos a que em cada dia tenhamos um novo episódio contributivo para essa degradação. No meio de tudo o que se vai sabendo nos diversos processos em desenvolvimento, incidentes como a troca de mimos entre Sócrates e Louçã não passam de um fait-divers sem significado (quase). É notável a forma como está a ser gerida a questão dos eticamente e moralmente inaceitáveis rendimentos dos gestores com a reafirmada defesa do deus mercado, exactamente a mesma atitude que subjaz a crise económica que atravessamos e que, mal se começa a vislumbrar a saída, logo se retomam os discursos e comportamentos que a provocaram, abandonando as promessas de mudança e reforma anunciadas quando se tornou necessário o dinheiro dos cidadãos para salvar o mercado.
A nuvem negra que actualmente paira sobre a Europa provocada pelo vulcão islandês pode, gostava de acreditar que não, ser uma premonição de um outro vulcão que pode entrar em erupção com consequências imprevisíveis. Refiro-me ao cansaço e à revolta dos cidadãos com as suas circunstâncias de vida que pode atingir proporções insustentáveis e com o risco de provocar nuvens mais negras do a que nestes dias defrontamos.
Oxalá me engane.

A HISTÓRIA DO GAJO PORREIRO

De vez em quando lembro-me do Gajo Porreiro. Era mesmo o tipo de pessoa que a grande maioria de nós acha um Gajo Porreiro.
Nunca se via aquele indivíduo com um ar aborrecido, antes pelo contrário, sempre bem disposto, satisfeito e a tentar que todos assim estivessem. Não se lhe conheciam problemas ou inquietações, para ele tudo estava bem. Era de uma solicitude que espantava, sempre atento a qualquer necessidade que, desde que ele pudesse ou soubesse, era resolvida.
O Gajo Porreiro nunca parecia incomodado consigo, vivia para os outros. Com um sorriso, não se furtava a elogios a alguém com quem estivesse o, que, naturalmente, fazia com que ainda mais fosse considerado um Gajo Porreiro. Tinha uma estranha e eficaz capacidade de quase sempre dizer o que as pessoas gostavam de ouvir. Não se lhe conhecia cansaço ou falta de disponibilidade para o que quer que fosse que agradasse a alguém.
Como disse, a maioria de nós não se lembra de ter alguma vez conhecido um Gajo Porreiro como este.
Era um dos tipos mais infelizes que eu conheci. Um dia, sem incomodar ninguém, como sempre, escreveu o fim da sua narrativa.

sexta-feira, 16 de abril de 2010

OS TORNADOS NUM PAÍS TRANSTORNADO

Isto não anda nada bem. Como se não bastasse o transtornado país em que vivemos também têm aparecido os tornados, ainda que em versão mini, felizmente. O mais recente, há poucas horas em Tavira e um ameaço em Cascais.
Assim não dá. Andava eu transtornado com a discussão sobre os prémios e bónus aos gestores que algumas vozes no governo e na oposição acham obscenos num país em crise, como se a questão fosse meramente económica e conjuntural e não do foro ético e moral.
Já me chegava o transtornado estado da justiça e a trapalhada sem fim em torno da Face Oculta e das escutas a que se juntou o negócio da PT, da TVI, do Taguspark com o Figo, etc., etc.
Lembrando Almada Negreiros, como se não bastasse o transtornado país à deriva ainda apareceu o negócio dos submarinos para nos transtornar debaixo de água. Curiosamente chamam-lhe de contrapartidas, um termo engraçadíssimo se tudo isto não fosse trágico.
Até a natureza está zangada, ou melhor, provavelmente também está transtornada. Faz a terra tremer na China e envia uma nuvem de poeira para atrapalhar quem pela Europa anda.
Felizmente, os nossos brandos costumes, a cultura e a tolerância generosa que nos caracteriza levarão a que os tornados sejam mini e ao resto já não liguemos.

A HISTÓRIA DO ÍDOLO

Naquela terra onde acontecem todas as coisas, havia um homem a quem tinham chamado Ídolo. O homem adorava o seu nome, toda a gente o tratava como Ídolo e habituou-se a esse tratamento. Onde quer que fosse era conhecido e reconhecido como Ídolo.
Chegava a algum lado e imensa gente o esperava, sabe-se como a gente gosta de ver um Ídolo. Os seus desejos eram ordens porque as pessoas, de uma forma geral, gostam de agradar aos Ídolos. Era apresentado com alguém verdadeiramente importante e ele próprio se surpreendia por ser tão considerado. O Ídolo não tinha consciência de como as pessoas precisam de ter Ídolos e por isso, sempre que encontram um, tratam-no bem.
Toda a gente queria chegar perto do Ídolo e ter o privilégio de uma palavra ou de um gesto da sua parte. O Ídolo aprendeu a comportar-se como as pessoas esperavam que um verdadeiro Ídolo se comportasse. A vida do Ídolo acabou por deixar de ser a sua vida, tornou-se no que os outros esperavam que fosse, aos poucos foi-se transformando num personagem, o Ídolo.
Um dia, o Ídolo, acordou com uma sensação estranha de que foi tendo gradual consciência, tinham-lhe roubado o nome que lhe tinham dado, já não era o Ídolo. Saiu desesperado em busca do nome e deparou com a gente a correr para um qualquer lado gritando, está ali o Ídolo. Ficou confuso e ainda interpelou alguns reclamando que era ele o Ídolo, não aquele outro que ali estava.
Ninguém lhe deu ouvidos, as pessoas já tinham outro Ídolo.
O Zé, nome que recuperou como seu, sobrevive ainda hoje contando a quem o quiser ouvir as histórias do tempo em que era Ídolo.

quinta-feira, 15 de abril de 2010

ESSES BURROS, OS ALUNOS

O texto seguinte é composto exclusivamente, exceptuando o último parágrafo, por citações de professores do ensino superior inquiridos pelo I sobre a literacia dos seus alunos. É uma peça notável.
Sobre a escrita. É um "mal generalizado", "São raros os que conseguem organizar um pensamento e escrevê-lo sem incorrecções", "Na generalidade, escreve-se como se fala. Os alunos distorcem as palavras para permitir uma colagem entre a grafia e a fonética".
Sobre a oralidade. "Há uma enorme dificuldade de os alunos conseguirem responder a uma pergunta com princípio, meio e fim", “Incapacidade de começar e terminar uma frase, mantendo uma lógica coerente”, "frases incompletas sem um fio condutor", "é pobre" e o raciocínio "vago e disperso". "Logo, as intervenções orais são baseadas no improviso", "Até nos casos em que peço aos alunos para lerem textos em voz alta, a leitura é apressada sem pausas e com total desrespeito pelas vírgulas e parágrafos".
Sobre o interpretar. “Ler um texto e saber transmitir o que se retirou dessa leitura é uma habilidade de uma minoria”, "Em regra, o discurso é confuso e há uma tendência para complicar conceitos simples", “Prestar atenção ao que o professor diz durante a aula e tomar notas em simultâneo é outra tarefa que poucos conseguem desempenhar”, "Um desafio constante tem sido fazê-los primeiro ouvir, para depois escreverem pelas suas palavras, evitando que se caia num regime de ditado".
“Dez minutos é, por outro lado, o tempo máximo que dura a concentração de uma turma”, "Mais do que isso, os alunos começam a dispersar-se e não tenho outra alternativa senão fazer uma pausa.", "Há 15 anos demorava duas aulas para ensinar um módulo, hoje levo o dobro do tempo."
Sobre a aprendizagem. "Os alunos perdem a capacidade para compreender conceitos complexos", "A partir do momento em que não percebo o que querem transmitir, não posso avaliar os seus conhecimentos".
A perplexidade sobre este retrato apresentado pelos opinantes como representando a generalidade dos seus alunos no ensino superior, leva-me a pensar como se pode ser professor, bom professor, de um grupo que é percebido pelo próprio como um conjunto de analfabetos com o raciocínio embutido. Os professores, também do superior, são tão parte do problema como parte da solução.

A HISTÓRIA DO BADOCHA

Ultimamente, tenho-me lembrado do Badocha. Queria recordar o nome dele mas não consigo, sempre foi o Badocha, companheiro da escola entre os seis e os doze, creio. Sempre foi o Badocha porque era gordo e naquela altura os gordos eram Badochas. Ele não gostava de ser o Badocha mas nós achávamos que ele só podia ser assim chamado. Não sabia jogar futebol, não sabia correr com o arco e a gancheta, não ia com a gente apanhar fruta e aos pássaros nas quintas que ainda existiam antes de terem inventado as urbanizações.
Mal conseguia agachar-se para jogar berlinde e jogar à rolha, um jogo de corrida, estava fora de questão, os Badochas têm dificuldades nestas coisas. Nunca alinhava para fazer partidas aos mais velhos nem gozar com os professores. A gente achava que um colega assim não tinha grande préstimo, servia para pouco, era um Badocha. Às vezes até pensávamos que ele se chateava mas a tentação era grande e ele nunca tinha direito ao nome, era sempre o Badocha, mesmo nas aulas com os professores.
Aí por volta dos doze anos o Badocha mudou de escola, provavelmente à procura de uma em que não fosse o Badocha.
Não mais soubemos dele, não soubemos se conseguiu recuperar o nome, o seu nome, não soubemos se encontrou companheiros de escola que fossem, isso mesmo, companheiros.
Ultimamente, tenho-me lembrado muito do Badocha.
Não vou a tempo mas gostava de te pedir desculpa, companheiro.

quarta-feira, 14 de abril de 2010

O INSUSTENTADO OPTIMISMO

Apesar do optimismo com que a Ministra da Educação encara o futuro próximo e o cumprimento de metas hoje noticiado, creio que apenas o estabelecimento de um programa de política educatica de natureza não partidarizada o sustentaria. Só que não vejo disponibilidade nos interessados em abdicar dos interesses da partidocracia em prol de um desígnio mobilizador direccionado de forma séria para a qualidade na educação. O que tem vindo a acontecer nos últimos tempos não permite, eu bem queria, ser optimista. Em termos necessariamente breves, vejamos alguns aspectos retomando algumas notas que há dias aqui deixei.
Do meu ponto de vista temos vindo a cumprir o que chamo de percurso de implosão da escola. A turbulência sentida com a equipa anterior do ME parece ter acalmado em termos formais, no entanto a escola continua doente, muito doente. Se inquirirmos alunos, professores, pais ou outros grupos próximos à educação sobre o seu sentimento face à escola, será provável que as respostas não sejam muito positivas. Dá-se a situação estranha de termos um universo tão importante como a educação em que os que lá habitam parecem não gostar do que têm. É frequente que todos culpem todos pelos males que afligem a escola criando dimensões de conflitualidade de evolução imprevisível.
Se repararmos nos discursos elaborados sobre os professores, pode constatar-se que ao mesmo tempo que se clama por uma autoridade que parecem ter perdido, se produzem afirmações e juízos que diminuem e comprometem seriamente a imagem social dos professores o que, obviamente, mina a sua autoridade.
A politização partidária da educação tem dado um fortíssimo contributo para a degradação do olhar produzido sobre a escola. Esta partidarização informa grande parte dos discursos políticos mas, também, grande parte dos discursos dos representantes dos professores. Tal situação, impossibilita a emergência de um desígnio que fornecesse uma energia propulsora de mudança que conjugasse diferentes esforços. Lembro-me como uma expressão, "No child left behind", pode, só por si, configurar um programa político impossível de imaginar entre nós.
Na imprensa multiplicam-se os discursos, mais ou menos informados, mais ou menos ignorantes, mais ou menos influenciados por agendas ocultas que fragilizam a percepção da escola.
As políticas educativas por incompetência e arrogância criaram uma perturbação no clima das escolas que a metodologia avulsa e reactiva, obedecendo ao incidente da agenda, da actual equipa não atenua significativamente até porque as mudanças anunciadas parecem mais acessórias ainda que positivas, algumas, do que essenciais. A tentação dos resultados que componham as estatísticas é maior que o compromisso com o rigor e a qualidade.
A preocupação sobre a escola, deixou, por boas e más razões de estar centrada nos alunos e na qualidade dos seu trabalho para estar centrada no trabalho do professor e nos seus problemas profissionais o que sendo obviamente importante não pode hipotecar a centralidade da escola.
A minha grande inquietação é que este trajecto que, por vezes me parece assustadoramente inconsciente, corre o sério risco de estar a promover de forma lenta a implosão da escola pública.
Não seria melhor arrepiar caminho?

SANTO DESCANSO

O Governo decidiu conceder tolerância de ponto no dia 13 de Maio em todo o país, na tarde de 11 em Lisboa e na manhã de 14 no Porto sendo que as respectivas Câmaras também o vão fazer aos seus funcionários. Esta decisão decorre como é evidente da visita do Papa Bento XVI. Como é sabido, Portugal é constitucionalmente um estado laico, embora seja também é claro o peso que a Igreja Católica tem na sociedade portuguesa.
Neste quadro não se entende muito bem a decisão de umas mini-férias à Administração. Apesar dos argumentos relativos à laicidade me parecerem suficientes, creio que num país onde o mal-estar económico, político e social é visível, esta medida mais não é que uma espécie de rebuçado, "de ide arejar" para esquecer as agruras da vida.
Como também sabemos, muitos de nós temos com o trabalho uma relação ética que assenta no "um mal necessário" pois "nunca mais me sai o euromilhões para deixar de trabalhar" pelo que estas decisões são sempre bem vindas.
No entanto, neste cenário, medidas deste tipo, com evidentes impactos económicos negativos, a produtividade e competitividade são bandeiras sempre presentes nas discursos e nas preocupações, são uma manifestação, mais uma, de demagogia irresponsável.
O que entristece um pouco, é que os que beneficiarão da tolerância cristã vão ficar contentes e os que não forem abrangidos vão achar que a medida não é muito cristã, é injusta.
É pena, mas mesmo sem pão, desde que haja circo, estamos bem.

OS MIÚDOS E OS CARROS

Um dia destes, estava num grupo de que faziam parte algumas crianças que se entretinham de forma variada. Um deles, num canto, não largava a consola. Aproximei-me e vi o gaiato, uns oito anos, a conduzir um bólide por uma pista cheia de outras bombas. Percebendo a minha curiosidade resolveu mostrar as suas habilidades de condução na consola. O miúdo era mesmo bom.
Os carros sempre fascinam os miúdos. Quando eu tinha aquela idade também me atraíam. Para mais, na família nem sequer tínhamos automóvel o que mais longe os deixava e aumentava a atracção.
O mais curioso é que naquele tempo a maioria de nós, sobretudo os rapazes, como sabem os carros era coisa para rapazes, arranjávamos carro, os carros de rolamentos de esferas. Cada um tinha o seu e, às vezes, até mais do que um. Com pouco dinheiro conseguia-se uns rolamentos, o meu pai de vez em quando trazia lá do trabalho dele, era serralheiro, ou, em alternativa, nos sucateiros do Gato Bravo também se encontravam variados e em conta. As tábuas, bem, as tábuas arranjavam-se numa visita nocturna a algum obra na zona porque aquelas tábuas grossas das cofragens eram as melhores.
Os meus carros ficavam sempre um espectáculo, desculpem a imodéstia, e faziam sucesso. Por vezes, quando não se destinavam a corridas até tinham bancos, forrados com uns restos de alcatifa, coisa fina, como vêem. Tinham travões, as ruas onde andávamos com os carrinhos assim o obrigavam, que eram feitos com os saltos de borracha dos sapatos que proporcionavam travagens eficientes. Sempre pintados com as tintas que se surripiavam aos pais, até tinham faróis, tampas de latas pregadas nos sítios adequados simulavam-nos de forma excelente. Tratava-se do mais genuíno tunning.
Quanto à condução, era adrenalina da pura. Na velha Rua I, inclinada quanto baste e sem muito trânsito, grandes corridas ali se fizeram e também grande “malhanços” se produziram e, devo confessar, o alcatrão queima e esfola que não é brinquedo.
Mas é assim, mudam-se os tempos, tudo fica diferente, mas devo confessar, enquanto o gaiato corria um qualquer Grand Prix na consola, a mim consola-me a lembrança dos meus carrinhos de rolamentos.

terça-feira, 13 de abril de 2010

PRECOCIDADE OU SINAIS DOS TEMPOS?

Variados estudos em muitas áreas têm vindo a evidenciar que alguns comportamentos nos adolescentes começam a ocorrer mais cedo que era habitual em gerações anteriores. Como exemplos, podem referir-se os hábitos de consumo de álcool e tabaco, a entrada na sexualidade activa e a antecipação de saídas nocturnas em gente com idade mais nova do que era mais frequente. Tal situação constitui, aliás, uma enorme dificuldade para muitos pais que se vêem como que “entalados” entre um não que acham que deve ser dito e a dificuldade de o dizer decorrente da pressão do “todos fazem”.
Como não podia deixar de ser também nos comportamentos de delinquência se assiste a uma visível precocidade, ou seja, mais frequentemente adolescentes e jovens assumem padrões de comportamento delinquente mais habituais em gente mais velha. O número de adolescentes e jovens em Centros Educativos e em Estabelecimentos Prisionais é um exemplo.
Este quadro obriga-nos a reflectir sobre a forma de lidar com estas questões e eventualmente a repensar a representação que temos da infância, adolescência e juventude. Os problemas criados pela delinquência infanto-juvenil sendo novos requerem, provavelmente, uma abordagem que não se limite a replicar as respostas que estavam desenhadas para outro tipo de padrões.
Teremos de discutir, por exemplo, as fronteiras entre reabilitação e repressão, ou seja, estrutura-se uma resposta em Centro Educativo, em Estabelecimento Prisional ou integram-se as duas abordagens? Com que conteúdos e para que destinatários? A questão da idade de imputabilidade criminal é uma questão fechada ou uma questão em aberto, podendo, no limite, chegar ao “para crime adulto, pena adulta” independentemente da idade do autor?
Provavelmente não é fácil uma resposta definitiva para estas questões, entre outras, que delinquência infanto-juvenil coloca, no entanto, parece-me que urge um debate sobre estas matérias que nos ajude a clarificar ideias, trajectos e respostas.

A EXPLICAÇÃO

Nestes primeiros dias de aulas do terceiro período, andava o Professor Velho, o que está na biblioteca e fala com os livros, pelo recreio quando se cruzou com o Diogo um miúdo reguila e atento que sempre que se encontram tem alguma inquietação a partilhar com o Velho.
Olá Diogo, tudo bem?
Não Velho está tudo mal, já estou cansado. Tu que és Professor e Velho explica-me uma coisa. Porque é que é preciso explicação?
Explicação?! Não percebo.
No segundo período tive negativa a Inglês e a Matemática O meu pai explicou-me que eu precisava de uma explicação. Eu expliquei ao meu pai que estando um bocado mais atento, se estudasse mais e se falasse com os setores, talvez não precisasse de explicação. O meu pai explicou-me que eu não posso chumbar ou mesmo passar com notas muito baixas, por isso era melhor a explicação. Expliquei ao meu pai que muitas pessoas estudam e fazem os cursos sem ter sempre notas altas e mesmo, às vezes, até chumbam, mas depois ficam bons nas profissões. Expliquei ao meu pai que na escola, a seguir às aulas tenho Estudo Acompanhado e a DT disse que vamos ter ajuda nas disciplinas mais fracas. O meu pai explicou-me que pode não chegar porque somos muitos e, portanto, era melhor uma explicação fora da escola com menos miúdos. Expliquei ao meu pai que saio da escola já tarde, a seguir ia para a explicação, ele disse três dias por semana, e depois ainda tenho que fazer o TPC das outras disciplinas. Ele explicou-me que é preciso muito trabalho para se ser alguém na vida e eu expliquei-lhe que tenho a certeza que vou ser alguém na vida, ser um Digo é já ser alguém, mas ele explicou-me que ele é que sabe o que é melhor para mim. Velho, estás a ver como já estou cansado. Conheces alguma explicação para pais que não percebem a explicação dos filhos?

segunda-feira, 12 de abril de 2010

A IMPLOSÃO DA ESCOLA

Começa o terceiro período nas escolas, o tempo curto em que se jogam todas as decisões. O aproximar do fim do ano traz a ansiedade para alguns e a tranquilidade para outros.
Visto do meu canto, o fim do ano acentua a inquietação com o que eu chamo percurso de implosão da escola. A turbulência sentida com a equipa anterior do ME parece ter acalmado em termos formais, no entanto a escola continua doente, muito doente. Se inquirirmos alunos, professores, pais ou outros grupos próximos à educação sobre o seu sentimento face à escola, será provável que as respostas não sejam muito positivas. Dá-se a situação estranha de termos um universo tão importante como a educação em que os que lá habitam parecem não gostar do que têm. É frequente que todos culpem todos pelos males que afligem a escola criando dimensões de conflitualidade de evolução imprevisível.
Se repararmos nos discursos elaborados sobre os professores, pode constatar-se que ao mesmo tempo que se clama por uma autoridade que parecem ter perdido, se produzem afirmações e juízos que diminuem e comprometem seriamente a imagem social dos professores o que, obviamente, mina a sua autoridade.
A politização partidária da educação tem dado um fortíssimo contributo para a degradação do olhar produzido sobre a escola. Esta partidarização informa grande parte dos discursos políticos mas, também, grande parte dos discursos dos representantes dos professores. Tal situação, impossibilita a emergência de um desígnio que fornecesse uma energia propulsora de mudança que conjugasse diferentes esforços. Lembro-me como uma expressão, "No child left behind", pode, só por si, configurar um programa político impossível de imaginar entre nós.
Na imprensa multiplicam-se os discursos, mais ou menos informados, mais ou menos ignorantes, mais ou menos influenciados por agendas ocultas que fragilizam a percepção da escola.
As políticas educativas por incompetência e arrogância criaram uma perturbação no clima das escolas que a metodologia avulsa e reactiva, obedecendo ao incidente da agenda, da actual equipa não atenua significativamente até porque as mudanças anunciadas parecem mais acessórias ainda que positivas, algumas, do que essenciais. A tentação dos resultados que componham as estatísticas é maior que o compromisso com o rigor e a qualidade.
A preocupação sobre a escola, deixou, por boas e más razões de estar centrada nos alunos e na qualidade dos seu trabalho para estar centrada no trabalho do professor e nos seus problemas profissionais o que sendo obviamente importante não pode hipotecar a centralidade da escola.
A minha grande inquietação é que este trajecto que, por vezes me parece assustadoramente inconsciente, corre o sério risco de estar a promover de forma lenta a implosão da escola pública.
Não seria melhor arrepiar caminho?

A HISTÓRIA DA TERRA ESTRANHA

Era uma vez uma Terra Estranha. Bem, a terra não era estranha, era como todas as terras, com coisas bonitas e outras menos bonitas. O que na verdade era estranho eram os seus habitantes, ou melhor, os comportamentos dos seus habitantes. Passavam o tempo a discutir, quase sempre o que não era muito importante. Com o que era importante parecia que não sabiam muito bem o que fazer. Nunca estavam satisfeitos, se tinham o que quer que fosse, protestavam porque era pouco e mau, se não tinham clamavam por isso mesmo, não tinham.
Naquela Terra Estranha faziam leis sem fim que para pouco serviam, eram tão complexas e cheias de buracos que acontecia tudo e não acontecia nada.
Escolhiam alguns deles para governar e depois protestavam que eles governavam mal, quando mudavam os governantes a situação era exactamente a mesma.
Toda a gente gritava que era preciso educação e toda a gente gritava contra os professores.
As pessoas daquela terra gostavam de dizer que a terra é bonita mas sempre que podem estragam a terra e dizem que fica melhor.
Passam o tempo a dizer que é preciso trabalhar e produzir e esforçam-se por ganhar o mais possível fazendo o menos possível.
O mais curioso é que metade das pessoas daquela terra andavam sempre a olhar para o céu a ver se dele caía o que a outra metade procurava, olhando para o chão, o que parecia ter desaparecido de vez naquelas paragens, o Juízo.

domingo, 11 de abril de 2010

O TRABALHO DOS MIÚDOS

Felizmente, o fenómeno do trabalho infantil já não tem a dimensão que há uns anos assumia. No entanto, continuam a verificar-se situações deste tipo.
Em algumas circunstâncias o envolvimento de adolescentes em situações de trabalho deve ser entendida considerando variáveis de natureza contextual e pessoal independentemente da necessidade de combater a situação. Estou a lembrar-se da colaboração de adolescentes em tarefas realizadas em contextos familiares, fora dos horários escolares e que, apesar da polémica desta afirmação, pode ser um bom contributo para a sua formação, embora, na verdade, estejam a desenvolver uma actividade com contornos laborais. Quando era miúdo e , trabalhei muitas horas com a minha avó e o meu pai na quinta sem sentir que estava a ser objecto de trabalho infantil e hoje acho que parte daquilo de que aprendi a gostar e a ser na vida tem alguma ligação com aquele trabalho a que me dedicava em férias, fins-de-semana e nos fins de tarde dos dias compridos de Primavera e Verão.
No entanto, sabemos da existência de situações de exploração dos miúdos que ocorrem simultaneamente ao abandono escolar. Este tipo de situações é mais frequente na adolescência e para além de eventuais dificuldades na economia familiar, prende-se, por um lado, com uma relação com a escola mal sucedida e com a incapacidade de perceber a escola como fazendo parte do projecto de vida. Por outro lado, remete para um sistema de valores que leva a que alguns adolescentes, ao terem oportunidade, entrem no mercado de trabalho para que rapidamente possam aceder a alguns bens que o orçamento familiar proíbe. Quando se inquirem adolescentes sobre os motivos que os levam a abandonar a escola e a entrar clandestinamente no mercado de trabalho, ouve-se com alguma frequência a vontade de ter dinheiro para comprar os bens que entendem como desejáveis.
Neste quadro, a questão central, para além do controlo sobre o mercado de trabalho, é a qualidade e a diversificação dos processos educativos. Em Portugal, o abaixamento significativo, ainda que continue alto, do abandono escolar foi conseguido através do alargamento fortíssimo da oferta de formação de natureza profissional, corrigindo um modelo de escola, de via única e de longo termo para obter formação para o mercado de trabalho.
Quanto maior for a qualidade e a diversidade da formação escolar, menor será a tentação do abandono precoce e a entrada no mercado de trabalho de forma clandestina e sob o enorme risco da exploração e do abuso.

sábado, 10 de abril de 2010

EDUCAÇÃO SEXUAL, O EQUÍVOCO

Foi regulamentada a lei que enquadra a educação sexual em contextos escolares. Sempre que por qualquer razão se fala em educação sexual, logo se levanta a questão sobre qual o papel da escola nesta matéria, sobretudo por parte dos que continuam a entender que tal não deve acontecer, posição que me parece assentar num equívoco.
Devo dizer que me surpreende um pouco a natureza da argumentação. Com os estilos de vida actuais, a reorganização dos papéis educativos daí decorrentes, por exemplo, o prolongamento até ao limite do aceitável da estadia das crianças e adolescentes na escola, faz deslizar para o interior dos espaços educativos formais muito do que em termos formativos faz parte da vida das crianças. É também sustentável que, sendo a educação sexual altamente permeável aos valores, as famílias entendem ser sua a tutela dessa área. No entanto, a organização do comportamento social, o estabelecimento de regras e limites e a formação global dos indivíduos também está fortemente ligada a valores e ninguém contesta o papel da escola nesse domínio, aliás, a tendência é, por vezes de forma excessiva, responsabilizar quase que exclusivamente a escola por essa formação.
O contributo da escola em matéria de educação social assenta sobretudo em informação e na construção autónoma e informada duma relação com a sexualidade que seja positiva, informada e adequada.
A ideia de que abordar algumas questões fomentará comportamentos desajustados, tal como na educação sexual também se ouve a propósito das campanhas de prevenção e informação no âmbito da toxicodependência tal como na educação sexual, resulta de um enorme equívoco.
A questão que me parece importante discutir nesta matéria, considerando a autonomia das escolas, é, sobretudo, como promover a educação sexual e quem desenvolve esses programas. Não me parece fazer sentido discutir se deve existir ou não.

UMA SOCIEDADE ZIPADA

As exigências do acesso, tratamento, troca de informação e dados fez entrar no nosso léxico "zipar" ou "zipado" que remetem para a acção de comprimir ficheiros e a designação de ficheiros comprimidos, reduzindo-lhes o "peso" e facilitando a circulação. Há pouco, necessitando de enviar um conjunto de ficheiros, procedi à rotina de os "zipar" e fiquei a pensar como esta compressão está tão presente na nossa vida.
Os miúdos vivem comprimidos entre os estilos de vida dos pais e uma quase intoxicante presença de horas a mais nas escolas. Vivem "zipados" entre a falta de perspectivas no futuro e as dificuldades do presente. Por outro lado e pelo contrário, parecem "unzipados", descomprimidos em excesso, pela falta de eficácia na regulação dos valores e na percepção de valores e limites.
Muitos de nós vivemos "zipados", comprimidos, pela pressão da sobrevivência em cada dia que começa. Muito de nós sentimo-nos "zipados" por interesses que, muitas vezes, não têm a ver com o bem-estar comum. O nosso quotidiano é "zipado" pela pressão consumista e pela ideia de que ser é ter.
Os mais velhos, os sobreviventes, estão, sentem-se, "zipados" pela solidão e a fragilidade face ao presente.
Acho que estou mesmo a precisar de "unzipar", descomprimir.

sexta-feira, 9 de abril de 2010

É PARA DEVOLVER, AINDA ESTÁ NA GARANTIA

Ontem, em texto em que abordei o relatório sobre as crianças e jovens institucionalizadas em Portugal, referi uma situação que me embaraça verdadeiramente, as crianças que são devolvidas por famílias depois de iniciado o processo de adopção. Embora, felizmente, em decrescimento, em 2009 ainda se registaram 16 casos.
Uma criança que por qualquer razão não tem uma família, está numa instituição, entra no que imagina passar a ser a sua família e algum tempo depois é devolvida passará certamente por uma experiência devastadora, provavelmente mais uma, com efeitos que não podem deixar de ser significativos.
Admito que no limite pode haver uma qualquer circunstância que justifique esta evolução, mas a situação deveria ser absolutamente excepcional.
A lei permite que durante seis meses a criança possa ser devolvida, trata-se de um período de adaptação, uma espécie de contrato à experiência. O Juiz Armando Leandro presidente da Comissão Nacional de Protecção de Crianças e Jovens em risco reconhece que a devolução não tem de ser baseada em "critérios necessariamente válidos". O DN cita um caso em que uma criança foi devolvida e trocada por outra porque não se adaptava ao cão a família. Outros casos de devolução envolvem dificuldades de adaptação a outros elementos da família ou a questões económicas.
Os serviços procuram na fase pré-adopção prevenir situações deste tipo que no entanto continuam a ocorrer.
Voltando ao chamado "supremo interesse a criança", é difícil imaginar o que se passará na cabeça de um miúdo que durante meses constrói uma ideia de família, durante mais uns dias ou meses, entra numa família a que chama sua e de repente lhe dizem que volta a estar só, na instituição, porque ... não se dá bem com o cão. Que sentirá a criança?
Porquê?

A HISTÓRIA DO ESCUTADOR

Um dia destes para ocupar a espera por alguém, sentei-me num banco a ver passar o mundo. Quase sem dar por isso sentou-se ao meu lado um Velho que, depois de cumprimentar, compôs um ar que não sou capaz de descrever, mas parecia assim um convite para conversar. Como é costume começámos com as banalidades do tempo, bom por acaso, e passámos à vida da gente. Quando lhe perguntei se ainda trabalhava, riu-se e disse-me que tinha um trabalho de que não havia reforma, era, disse com a maior serenidade, Escutador. Perante a minha perplexidade, repetiu devagar, sou um Escutador, não me falta trabalho, acrescentou. Não resisti à curiosidade de saber que escutava um Escutador.
O Velho começou, sempre num jeito manso, a explicar-me o que escuta. Escuta pessoas, muitas pessoas. Escuta miúdos que passam muito tempo sós e que, por vezes, gritam desesperadamente por alguém que os oiça. Escuta adolescentes que vivem perdidos falando para outros tão perdidos quanto eles que também só falam, não ouvem. Escuta gente, muita gente, mulheres e homens que não se escutam ou porque vivem sós, ou porque se sentem sós no meio de uma vida maior que eles, que grita tão alto que torna impossível escutar o que quer que seja. Escuta velhos, silenciosos, isolados, que apenas têm por companhia uma televisão que não os escuta mas que eles também não ouvem, o som é um ruído de fundo a disfarçar a solidão. Durante ainda mais uns minutos foi falando de quem escutava. Pois é este o meu trabalho amigo, escutar, resumiu por fim o Escutador.
Nessa altura, esgotou-se a minha espera e ainda meio perplexo despedi-me do Escutador com um banal, gostei de o ouvir. De escutar, disse o Velho acrescentando, olhe amigo, um dia ainda vai gostar e aprender a ser um Escutador, é que há poucos.

quinta-feira, 8 de abril de 2010

PROJECTOS DE VIDA

A situação portuguesa no que se refere a crianças e jovens institucionalizadas, tem vindo a Registar uma evolução positiva o que é de realçar, embora permaneçam alguns aspectos que suscitam atenção. Segundo o Relatório de 2009 diminuiu o número de crianças e adolescentes institucionalizadas, passaram para 9563. No entanto, o perfil altera-se em termos qualitativos. Em 2009 a maioria das crianças institucionalizadas tem mais de 12 anos, exactamente a faixa onde maior dificuldade se regista para entrar em processo de adopção. Os novos casos de institucionalização envolvem sobretudo adolescentes e jovens, muitos deles referenciados como problemáticos. De todos os institucionalizados a adopção será previsível para 10.5%, existem muitas crianças e adolescentes que pelas suas características não são "apetecíveis" para adopção, e cerca de 3% não têm qualquer projecto de vida. Um dado bastante curioso refere que em 2009, 16 crianças foram devolvidas aos serviços por famílias que as tinham adoptado, situação absolutamente devastadora.
Colateralmente, também é notícia hoje um caso de suicídio de um adolescente de 17 anos num Centro Educativo em Lisboa. A situação de sobrelotação destes Centros tem vindo a ser recorrentemente referenciada.
Apesar da evolução positiva no universo das crianças institucionalizadas, muitas delas continuam a ver comprometido um projecto de vida viável e positivo ainda que através de vias diferenciadas. Esse é o grande desafio das instituições de acolhimento.
Por outro lado, importa não esquecer que muitas das crianças e adolescentes não institucionalizadas, vivem em situação de risco, muitas vezes conhecido, sinalizadas ou referenciadas como se diz na gíria, pelo que também podem ver seriamente comprometido aquilo que por dever da comunidade e direito de crianças e adolescentes não pode deixar de acontecer, a construção de um Projecto de Vida viável e positivo.

O MIÚDO TOMADO DE PONTA, OUTRO DIÁLOGO IMPROVÁVEL

Um dia destes estava a Lisete com a colega do escritório, a Sandra, a almoçar no Centro Comercial, naquele snack A Tigelinha, que tem umas sopas que são um mimo, pena ter que comer em pé, quando a conversa dos filhos veio à baila, como de costume.
Ainda bem que estão a acabar as férias, não gosto nada que o meu Rodrigo fique em casa sozinho. Ele até se entretém muito com o computador, para ali joga e fala com os amigos. Se calhar até fala com o teu Miguel.
O Miguel nunca comentou.
Mas agora começam as aulas e vai ser outra ralação. O Rodrigo está um bocado aflito, teve umas notas que não foram grande coisa.
Lá nisso, o meu Miguel não me preocupa, as notas não são excelentes mas são boas.
Pois, mas o meu Rodrigo teve azar, os professores de Matemática, Inglês e Ciências tomaram-no de ponta. Nunca faz nada bem feito, estão sempre a prejudicá-lo.
Já falaste com eles Lisete?
Já, não adiantou nada. Disseram-me que ele estuda pouco, não está atento nas aulas, por vezes até nem se porta grande coisa e esquece-se muitas vezes de fazer os trabalhos de casa.
Então se calhar é por isso que as notas não são melhores.
Qual quê, já te disse, tomaram-me o miúdo de ponta. Tu não os conheces, o teu Miguel não anda na escola do Rodrigo. Ao meu sobrinho Gonçalo, que é mil vezes pior que o Rodrigo, dão notas boas só porque engraçaram com ele. Eu bem sei.
E já falaste com o Rodrigo sobre a maneira como ele trabalha.
Claro e ele disse-me o mesmo, os professores tomaram-no de ponta. Até disse que não adianta estudar já sabe o que lhe vai acontecer.
E é o quê?
Chumbar é claro, os professores são assim, só passam quem eles querem, é o que eu te digo, tomaram o meu Rodrigo de ponta.

quarta-feira, 7 de abril de 2010

ENGENHARIA DA MANUTENÇÃO DO AUTOMÓVEL

Segundo a Agência para a Avaliação e Acreditação do Ensino Superior, os pedidos de acreditação entregues nesta fase permitem afirmar que dos cerca de 4900 cursos actualmente existentes, 640 deixarão de existir antes de qualquer avaliação.
É um bom sinal, já aqui tenho dito e é conhecido, temos uma oferta de ensino superior, universitário, politécnico e subsistema privado, completamente distorcido. A responsabilidade é, obviamente, da tutela que se demitiu durante décadas da sua função reguladora escudando-se na autonomia universitária, designadamente no sistema público.
Espera-se que o processo de avaliação e acreditação agora desencadeado, seja eficaz e não desenvolvido de uma forma cega. Existem cursos que apesar de alguma menor empregabilidade se inscrevem em áreas científicas de que não podemos prescindir com o fundamento exclusivo da empregabilidade. Podemos dar como exemplo formações na área da filosofia ou nichos de investigação que são imprescindíveis num tecido universitário moderno. Será também importante que o processo permita desenvolver e incentive modelos de cooperação, universitário e politécnico, público e privado, que potencie sinergias, investimentos e massa crítica.
É fundamental que se racionalize a oferta, não se pode ter um estabelecimento de ensino superior só porque a autarquia do lado também tem.
Finalmente, continuamos à espera de uma séria e profunda reordenação das áreas científicas de formação evitando os actuais 4900 cursos. Lembro-me sempre da dificuldade que o meu filho sentiu há alguns anos para perceber a diferença entre uma licenciatura em Engenharia da Manutenção do Automóvel e uma Licenciatura em Engenharia Mecânica.

ESTEVAS, LÍRIO ROXO E MALMEQUERES

Privilégio meu, eu sei. Estando ainda no meu Alentejo fomos passear para o outro Alentejo, que também é meu. Como sabem, nós fazemos nosso aquilo de que gostamos. Por isso falamos da nossa terra quando nela não temos nem um metro quadrado, mas é nossa porque dela gostamos. Pois fui para as margens do Guadiana, a esquerda e a direita. Estão bonitas, muito bonitas, as margens, tal como o Guadiana que corre cheio. No Pulo do Lobo acho que nem o lobo se atreveria.
Este ano, farto de água, ou na linguagem comedida do Velho Marrafa, escapatório, as margens estão bem cobertas. Também gosto de ver no Verão a terra despida, sobretudo na margem esquerda, mas nesta Primavera vestiram-se de lindeza, as duas. E também se perfumaram.
As estevas já estão com as flores brancas, em variadíssimas combinações com o lírio roxo e os malmequeres brancos e amarelos pintam e perfumam a terra. Como se fosse pouco, de quando em vez, ainda vem um cheiro a rosmaninho. É assim o Alentejo, o nosso Alentejo.
Já me esquecia. Lá para as bandas entre Serpa e as Minas de S. Domingos, numa queijaria tradicional que não posso referir, comprámos uns queijos que, já provei, são excelentes, como as estevas, o lírio roxo e os malmequeres.
Passem pelas margens do Guadiana agora na Primavera e depois digam qualquer coisa.

terça-feira, 6 de abril de 2010

A MORTE DO LEANDRO, CULPA E RESPONSABILIDADE

Segundo a conclusão da Inspecção-geral de Educação, a escola e os colegas estão isentos de responsabilidades na morte do Leandro, o miúdo de Mirandela que morreu no rio Tua.
Não seria necessário fazer um grande esforço para antecipar os resultados do inquérito. Seria completamente improvável que ele viesse a estabelecer um nexo de causalidade entre os factos, mais conhecidos ou menos conhecidos, e a morte do Leandro. Por aqui nada de novo num país de brandos costumes que não saberia o que fazer se não fossem estas as conclusões.
Também nada novo no que respeita a um dos equívocos mais frequentes entre nós, a confusão entre culpa e responsabilidade que não são de todo a mesma coisa.
Nesta tragédia, com a criança encontrada e a família em luto, sou capaz de entender que não seja possível encontrar culpados, também não o faço. No entanto, tenho uma enorme convicção, a morte de uma criança naquelas condições tem certamente responsáveis, todos os que fazemos parte da comunidade.

PALAVRA DE PROFESSOR

Agora trata-se de valorizar a palavra dos professores, ou seja, até prova em contrário, a palavra de um professor vale mais do que a dos outros envolvidos num incidente, reconhecendo-lhes o estatuto de autoridade pública. Continua a forma reactiva e voluntarista de funcionamento da actual equipa do ME.
Nesta senda de ir tentando reagir de forma avulsa aos problemas, a Senhora Ministra da Educação já admitiu que a ofensa grave a professores possa ser considerada crime público e, portanto, não carecer de queixa para que desencadeiem os adequados procedimentos de investigação. A proposta apresentada pela Fenprof retomou, aliás, uma ideia subscrita em 2002, sublinho 2002, pelo Conselho Nacional de Educação.
Do meu ponto de vista e não tendo nada a opor à classificação das ofensas como crime público nem ao reconhecimento do estatuto de autoridade pública, creio que importa ponderar alguns aspectos.
A imagem social dos professores tem vindo a sofrer uma erosão significativa, alguns estudos e a chamada "opinião pública" reflectem-no. As razões são variadas e dificilmente compatíveis com este espaço mas creio que uma boa parte da política educativa dirigida aos professores nos últimos anos, uma boa parte dos discursos dos lideres sindicais e os discursos ignorantes e irresponsáveis de alguns "opinion makers" têm dado um bom contribuo para que, em termos sociais, a imagem dos professores se desvalorize. Este processo mina de forma muito significativa a relação que pais e alunos têm com os professores, ou seja e sendo deselegante, "uma classe de gente que não trabalha", "que não se interessa pelos alunos", "que não quer ser avaliada", etc., (basta ver muitos dos comentários on-line a notícias que envolvem professores), não é, obviamente uma classe que mereça respeito pelo que se instala de mansinho um clima de reacção, desconfiança e fraqueza que minimizam o exercício da autoridade. Os pais e alunos que agridem e ofendem professores são uma espécie de "braço armado" dessa imagem social induzida.
Por outro lado, a cultura profissional e institucional em boa parte das nossas escolas e agrupamentos é ainda marcada por um excesso de individualismo. Quero dizer com isto que, lamentavelmente, os professores evidenciam níveis de cooperação e partilha profissional abaixo do que seria desejável. As razões serão várias e não cabem aqui, mas creio que justificam, muitas vezes, a não realização de queixas de incidentes, muitas vezes graves, por receio de exposição e demonstração de fragilidades face a colegas e responsáveis, o que uma cultura de maior cooperação atenuaria. Acresce ainda que, por desatenção, incompetência ou negligência muitas direcções de escolas e agrupamentos não vão muito longe na definição de dispositivos de apoio, recorrendo a outros docentes mais experientes ou à presença de dois professores por exemplo, que dariam aos professores apoio e confiança para o trabalho com os seus alunos.
Finalizando e, independentemente, da classificação como crime público das ofensas físicas a professores ou do seu reconhecimento como autoridade pública, urge caminhar no sentido de reconstruir a imagem social dos professores como fonte imprescindível de autoridade, saber e importância e, paralelamente, incentivar a construção nas escolas de dispositivos leves e ágeis de apoio aos professores de forma a que cada um não se sinta entregue a si próprio e com receio de "enfrentar" os alunos e os pais, a pior das situações em que um docente se pode sentir.
Este caminho é da responsabilidade de todos, ministério, sindicatos, direcções de escola pais, professores e alunos.